POV/ SKY
O estofado do táxi parecia feito de lixa contra a minha pele. Cada buraco que o carro passava nas ruas de Porto Alegre fazia a minha bunda queimar, um ardor incômodo que me obrigava a mudar de posição no banco a cada dois minutos para aliviar a ardência dos vergões. Meu corpo inteiro estava dolorido, mas, pela primeira vez em meses, a minha cabeça estava em silêncio.
Aquela tempestade de culpa e pensamentos barulhentos tinha sumido, esmagada pela força do Rocco no quarto vermelho.
Eu me sentia limpa, calma e estranhamente aliviada. Mas a confusão ainda martelava no meu peito enquanto eu olhava a cidade passar pelo vidro embaçado. Eu não sabia o que estava fazendo da minha vida. A verdade, que eu tentava esconder até de mim mesma, era que a minha vontade real tinha sido ficar deitada com ele naquele colchão, sentindo o peso do corpo dele me segurando.
Tinha sido incrível. Carnal, violento e absurdo. Mas o medo me empurrou para fora.
Se eu cedesse, se eu entregasse o meu controle para o Rocco, eu me sentiria fraca. Ele já tinha omitido tanta coisa sobre o passado do meu pai, e quem me garantiria que ele não mentiria de novo? Eu estava perdida em um labirinto de incertezas, mas pelo menos o peso esmagador no meu peito tinha dado uma trégua.
O táxi parou em frente ao nosso prédio simples. Paguei a corrida com os últimos trocados da carteira e subi os lances de escada carregando o cansaço nos ossos. Girei a chave na fechadura e empurrei a porta de madeira devagar. O cheiro familiar de umidade e desinfetante barato me recebeu. Caminhei direto para a cozinha e vi a Moon em pé perto do fogão, mexendo uma panela com os cabelos loiros presos de qualquer jeito.
Ela se virou na hora em que o barulho dos meus sapatos ecoou no piso de cerâmica. O rosto dela demonstrou um alívio imediato, mas os olhos verdes me mapearam de cima a baixo, tentando ler o tamanho exato do estrago que o mundo tinha feito comigo nas últimas horas.
— Sky... você voltou — ela disse, largando a colher de lado. — Como você está?
Eu não dei espaço para ela começar a fazer perguntas difíceis. Dei um passo à frente, entrei na cozinha e olhei bem no fundo dos olhos da minha irmã caçula. Senti um nó apertar a minha garganta, uma onda de arrependimento pelo rumo que as nossas vidas tinham tomado após o golpe dos Gouveia.
— Eu estou bem, Moon. Estou calma. Mas eu preciso te pedir desculpas.
Moon franziu o cenho, dando um passo na minha direção com o semblante confuso.
— Desculpas pelo quê, Sky?
— Por tudo — respondi, e a minha voz saiu trêmula, ríspida pela emoção contida. — Por deixar a nossa vida virar essa bagunça completa. Por não ter conseguido nos proteger de um jeito melhor. Eu não queria que nada disso tivesse acontecido dessa forma, com contratos, com esses homens do clube, com essa loucura toda. Eu sou a irmã mais velha, era meu dever segurar o teto acima da nossa cabeça sem deixar o chão ceder.
Moon não respondeu com palavras. Ela simplesmente avançou e envolveu o meu corpo com os braços dela, me apertando com uma força que me pegou de surpresa. Enterrou o rosto no meu ombro e soltou um suspiro longo, deixando as lágrimas molharem o tecido do meu casaco.
— A culpa não é sua, Sky. Nunca foi. Você fez tudo o que podia fazer para nos manter vivas. E não importa o tamanho do problema, nós vamos conseguir passar por isso juntas. Como a gente sempre faz desde que perdemos tudo.
Afastei o corpo dela de leve, segurando os ombros da Moon para que ela me ouvisse com atenção total antes de tomarmos qualquer decisão.
— Escuta o que vou te dizer, Moon. Se você quiser cancelar o seu contrato agora, se não quiser mais ver esse homem que você encontrou no clube, não tem problema nenhum. A gente dá um jeito. A gente rasga o papel, vai embora para o interior, muda de nome, faz qualquer coisa. Mas você não é obrigada a continuar com isso se estiver se sentindo mal ou com medo.
Moon mordeu o lábio inferior, desviando o olhar por um breve segundo antes de sustentar os meus olhos novamente. A determinação no rosto dela me deixou estática.
— Eu quero continuar, Sky. Eu quero ficar com o contrato.
— Tem certeza, Moon? Você mal conhece esse sujeito.
— Tenho certeza. Ele... ele me faz se sentir estranhamente bem. É uma experiência boa para mim, de verdade, por mais que pareça uma loucura. Eu sei que ainda não o conheço direito, ele só se chama de Senhor C e tudo mais, e às vezes parece até que ele já me conhecia antes de tudo isso começar, o que eu não sei explicar direito. Mas ele não fez nada de errado comigo, não passou dos limites e me tratou bem. E se ele fizer qualquer coisa estranha, eu juro que te conto na mesma hora.
No segundo em que terminou de falar, a barreira da Moon desabou. As pernas dela perderam a firmeza e ela caiu de joelhos direto no chão da cozinha, chorando alto, um choro desabafado que vinha guardando há dias. Me agachei na mesma hora, abraçando a minha irmã ali mesmo no piso, deixando que ela chorasse tudo o que precisava contra o meu peito.
— Obrigada por tudo, Sky... por favor, obrigada — ela soltou entre os soluços, apertando as minhas costas com os dedos trêmulos. — Você é a melhor irmã do mundo inteiro. Agora as coisas vão mudar. Com esse dinheiro a gente vai conseguir reativar os planos médicos do papai, pagar as enfermeiras direito e finalmente trazer ele de volta para casa, para esse quarto.

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