(POV: CHRISTIAN/ Senhor C)
Girei o copo de whisky na mão, observando o reflexo das luzes de neon rosa no líquido escuro. Fazia muito tempo que eu não tinha pisado no Erotic's Boys. O ambiente continuava barulhento, exalando aquela mistura de testosterona, cerveja barata e fumaça, mas a minha cabeça estava longe dali, presa nas planilhas e nos relatórios da Blackwood CO.
O volume de trabalho tinha duplicado nos últimos dias. Com a viagem repentina do Rocco para Londres, precisei assumir toda a engrenagem. Ele foi acompanhar o Ravi em uma terapia familiar intensiva a pedido do velho, mas também foi tentando resolver a questão com a Jussara, algo que eu achava muito difícil de se resolver. Quando o senhor e a senhora Blackwood colocavam algo na cabeça, já era.
Para piorar, a crise das obras municipais me obrigou a redirecionar os projetos excedentes da prefeitura para as três equipes sobreviventes do concurso: a Garcia Medeiros, a Gouveia e a Zênite. Seria uma etapa extra e inconveniente, porque eu tinha pressa que esse concurso acabasse logo para eu poder ficar com a minha Lua, sem problemas, barreiras ou qualquer segredo.
Antes de ele ir, eu e o Rocco entramos em um acordo com os médicos para estender a internação do Otávio Bittencourt por mais duas semanas ou até o meu primo voltar de viagem. O velho tinha operado, estava se recuperando bem e tecnicamente poderia ir para casa, mas a estrutura da residência daquelas meninas era velha e cheia de infiltração.
Manter o pai delas no hospital para fazer a fisioterapia de ponta seria melhor, mais garantido e as deixaria mais confortáveis. Assim, elas poderiam trabalhar focadas no escritório sem se preocupar com os aparelhos no mofo.
Dei mais um gole no whisky, sentindo o líquido queimar a minha garganta, e respondi alguns e-mails urgentes pelo celular.
Pelo canto do olho, percebi que o Arthur estava me encarando de longe. Ele limpava o balcão com os braços cruzados, medindo o corte caro do meu terno contra a madeira pegajosa do bar. Ele hesitou por alguns minutos, mas finalmente caminhou na minha direção, batendo de leve com o pano sobre o balcão.
— E aí, cara? O que você está fazendo aqui jogado nesse canto? — Arthur perguntou, parando do outro lado com um sorriso de canto.
— Bom, eu tinha que te perguntar a mesma coisa, né? — respondi, erguendo o copo na direção dele e sustentando o olhar. — Porque ver o herdeiro das Zeiberg Joalheria trabalhando de camisa aberta em um lugar como este... Quando o Rocco me contou, eu nem jurei que fosse verdade. Tive que vir aqui para ver com os meus próprios olhos.
Arthur soltou uma risada curta, jogando o pano por cima do ombro e balançando a cabeça de forma descontraída.
— Bom, então agora que você já conferiu o fantasma, eu vou ali porque preciso trabalhar e atender aquela mesa — ele disse, ajeitando os copos e fazendo menção de se afastar.
— Não, espera — segurei o braço dele de leve, mudando o tom para algo sério e firme. — É sério, Arthur. O dia que você resolver assumir o seu legado, quiser de fato ganhar dinheiro e assumir os negócios da sua família, saiba que a porta vai estar sempre aberta para você na Blackwood. Nós sempre precisamos do melhor acabamento nos nossos hotéis de luxo, ainda mais agora com o resort Horizon que estamos construindo. A indústria da sua família com certeza vai ser útil para nos fornecer esse material de elite.
Arthur me encarou por um segundo, processando as palavras em silêncio, e assentiu com um semblante de gratidão real, mas sem mudar a postura relaxada.
— Obrigado, Christian. Mas dinheiro não é tudo. — ele respondeu de forma simples, guardando o pano no bolso e se afastando para atender os clientes no fundo do salão.
Fiquei olhando ele sumir no meio da penumbra da boate. Eu não conseguia entender a cabeça do Arthur. Eu tinha sido pobre na infância. Tinha passado fome crônica, miséria e necessidade real, até conseguir lutar e enriquecer de verdade. Para mim, ficar rico tinha sido uma das melhores coisas que aconteceram na minha vida, a minha salvação. Em contrapartida, eu tive que me mudar para a Inglaterra e passar anos longe da garota que eu sempre gostei, mas eu sabia que aquilo tinha sido um sacrifício necessário.
Se eu não tivesse ido para fora, se não tivesse acumulado poder, influência e dinheiro, hoje eu não teria condições financeiras de ajudá-la de verdade. Ela mesma tinha me dito no passado, com aqueles olhos fixos nos meus, que eu precisava ficar forte. Eu escutei o conselho. Eu fiquei forte. Fiquei rico.
Por isso eu achava a escolha do Arthur uma burrice completa. Mas eu sabia que o jogo mudaria para ele mais cedo ou mais tarde. O dia em que o Arthur se apaixonar por alguém de verdade, ele vai querer o que é dele por direito. Vai querer mudar de vida, assumir o império e ter dinheiro para proteger quem ele ama. Quando você gosta de alguém de verdade, essa pessoa te eleva, faz você querer se destacar e querer ser superior ao resto do mundo só para manter ela segura.
Peguei o celular em cima do balcão. Eu estava absurdamente ocupado gerenciando a empresa sozinho, o que me impedia de ir ver a Moon pessoalmente nessas duas semanas. A gente se falava por mensagens todos os dias, mas o comportamento dela estava me incomodando de um jeito pesado.
A Moon estava perdendo a personalidade. Ela não parecia mais aquela garotinha travessa, alegre e cheia de brilho que eu tinha conhecido no passado. Desde nova, ela vivia escondida atrás da sombra da irmã mais velha, a Sky, mas agora parecia que ela estava diminuindo cada vez mais, murchando diante das dificuldades do mundo. Eu precisava ajudar a minha loira a recuperar a essência dela.
Ela tinha me mandado uma mensagem dizendo que tinha se acertado com a Sky, e foi aliviante ler aquilo, porém ela continuava muito sem perspectiva. Perguntei o que ela queria do próprio futuro e ela me respondeu de forma morna: "Não sei, o que for melhor para minha família".
E essa resposta dela permaneceu na minha mente por treze dias e meio. Ressoando, ressoando e ressoando na minha cabeça, me deixando possesso.
Droga!!!
Bebi mais uma dose da bebida de uma vez.
A tela do aparelho acendeu com uma nova notificação. Era ela.
"Oi. Quando é que eu vou te ver? Quando você vai me contar quem é de verdade?" — Moon escreveu.
Digitei a resposta de forma rápida, mantendo a minha postura firme na tela:
"Minha vida está muito corrida agora, estou muito ocupado com os negócios. Vamos nos ver logo"
"Ai, não acredito... eu queria ver você de novo" — ela respondeu quase de imediato, enviando um emoji triste.
"Porque?"
"Queria que fizesse aquilo comigo de novo comigo 🙈" — ela respondeu com o emoji de macaquinho tampando os olhos.

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