POV/ MOON
Deixei o celular cair no colo, sentindo um aperto forte no peito. Charlotte percebeu a minha fisionomia mudar na mesma hora e se inclinou na minha direção, apoiando os cotovelos nos joelhos enquanto terminava de ajeitar as mechas azuis recém-tinturadas na frente do espelho do salão.
— O que houve, Moon? Que cara é essa? Parece que viu um fantasma — ela perguntou, arqueando uma das sobrancelhas com aquele jeito elétrico e meio louco dela.
— O meu amigo... ele disse que os meus olhos continuam tristes — sussurrei, encarando as letras miúdas na tela apagada do aparelho.
Charlotte estalou os dedos bem na frente do meu rosto, fazendo um barulho estalado que me arrancou do transe.
— Sabe o que você precisa de verdade? Viajar. Sair dessa linha de sofrimento. Nós estamos no meio do mês de julho, é férias da faculdade e você mesma acabou de me dizer que já terminou toda a sua parte no projeto do parquinho da empresa. Pega as suas malas e vai passar o final de semana sozinha em Porto Seguro. Vai respirar outros ares, curtir o clima da praia e esquecer os problemas de Porto Alegre por uns dias.
Olhei para a última mensagem dele e depois encarei o rosto pintado de azul e roxo da Charlotte. A ideia dela era excelente, parecia um encaixe perfeito. Cumpriria exatamente o item um da lista de autorredescoberta que ele tinha me enviado: viajar sozinha para um lugar completamente novo para arejar a cabeça. Em um único dia, eu ia colocar em prática o item quatro, o seis e o um.
— Eu vou fazer isso — respondi para a Charlotte, sentindo o meu coração bater mais rápido contra as costelas com a ideia repentina da viagem.
A adrenalina correu pelas minhas veias. Peguei o celular antes mesmo de sairmos do salão de beleza. Eu sabia perfeitamente que não podia simplesmente tomar uma decisão daquelas por conta própria e sumir do mapa sem falar com ele primeiro. Eu precisava da aprovação do meu mestre, fazia parte das regras invisíveis que nos amarravam. Abri o aplicativo de mensagens e digitei com os dedos ainda um pouco trêmulos por causa do nervosismo.
"Vou viajar para porto seguro, o que você acha? Eu posso?"
A resposta dele veio rapidamente na tela, sem qualquer enrolação ou joguinho de espera, demonstrando a prontidão habitual:
"Claro que sim, só me atualize de tudo e compartilhe sua localização comigo."
Senti minhas bochechas queimarem de vergonha no mesmo instante, um calor absurdo subindo direto das maçãs do rosto até a raiz do meu cabelo loiro. Digitei a resposta sentindo o coração acelerar o ritmo, os dedos deslizando rápidos pelo vidro:
"Desse jeito parece que somos um casal ou estamos em um relacionamento"
"Claro que temos uma relação." — ele rebateu logo em seguida, me causando um frio na barriga e fazendo meu coração acelerar em seguida.
Nós conversamos mais um pouco por mensagens curtas sobre o andamento do meu dia e sobre a minha amiga. Disse a ele que tinha tomado coragem e feito algo muito ousado pouca hora antes, mas não quis contar o que era de jeito nenhum. Provoquei o Senhor C escrevendo que fiz algo ousado e que ele só descobriria o que eu tinha aprontado quando nos víssemos novamente face a face.
"Você está começando a reencontrar a garotinha sapeca que existia dentro de você!" — a mensagem dele piscou no visor, me fazendo sorrir de canto, com um misto de satisfação e orgulho bobo.
Ainda sentada na cadeira do salão, enquanto a Charlotte pagava a cabeleireira com uma daquelas notas pesadas de dinheiro vivo, abri o aplicativo de viagens no meu telefone. O saldo da minha conta piscava com os dez mil reais que ele tinha depositado. Comecei a pesquisar passagens aéreas saindo de Porto Alegre com destino ao Nordeste. Encontrei um voo perfeito para a próxima sexta-feira e selecionei um pacote com uma pousada reservada e aconchegante, bem perto da passarela principal.

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