POV: ROCCO BLACKWOOD
Eu estava organizando as pastas físicas e os relatórios que o Lorenzo tinha deixado para a transição final. Nathan e Diego ainda discutiam sobre a Sakura e os novos rumos da vida dela o que parecia ser muito mais importante do que o concurso, mas eu mal ouvia. Minha mente estava focada em revisar os projetos que já tínhamos como certos e em como eu filtraria os próximos quatro sem perder a paciência com a mediocridade alheia.
A porta da sala de reuniões não apenas abriu; ela foi escancarada. Meu tio Lorenzo entrou com o rosto pálido, uma expressão que eu nunca tinha visto naquele homem que sempre foi o pilar da nossa calma empresarial.
— Rocco, preciso falar com você. Agora. É urgente — a voz dele falhou, e o papel que ele segurava tremia levemente.
Eu me levantei de imediato, sentindo um solavanco no peito.
— O que aconteceu?
— Seu avô... o meu pai. Ele sofreu um infarto. Minha mãe me ligou agora, aos prantos. Ele foi levado às pressas para o hospital em Londres e o quadro é instável. Ela está desesperada, Rocco.
O ar pareceu sumir da sala. Heitor Blackwood era um carvalho, uma montanha que eu achei que nunca dobraria. Senti meu sangue esfriar.
— Ele não estava respirando direito quando a ambulância chegou — Lorenzo completou, a voz baixa. — Eu preciso ir para Londres.
— Você não pode ir agora! — Diego interveio, olhando para o cronograma no tablet. — Senhor, temos a reunião definitiva para o projeto da nova filial. O conselho está esperando, a imprensa está em cima do Horizon. Você é o atual CEO, sua ausência vai gerar um caos especulativo.
Eu fuzilei o Diego com o olhar.
— O conselho que se foda, Diego. É o meu avô.
— Ele tem razão, e ainda tem o projeto da praça da cidade... o prefeito vem hoje para a reunião — Lorenzo confirmou, a voz pesada pela dúvida. — Eu não posso ir. Mas vá você, Rocco.
— E o concurso? — Diego insistiu. — Eu pareço insensível, mas pode apostar que eu sei lidar com dramas familiares. Só que este é o projeto da sua vida, Rocco.
Virei-me para o Nathan, que estava estático, processando a gravidade da situação. Eu sabia que, apesar da palhaçada constante, o Nathan tinha o melhor "faro" para o que eu buscava naquele concurso. Me levantei, rodei a mesa e fui até meu amigo, segurando-o pelo ombro e apertando com força.
— Nathan, escuta bem. Eu vou para Londres. Vou pegar o Ravi na escola agora e decolar no jato. Vocês dois terminam de selecionar os quatro projetos que faltam junto com o conselho.
— Rocco... — ele começou, mas eu o cortei.
— Pelo amor de Deus, Nathan... você me conhece. Você sabe o que eu busco. Esqueça as estátuas douradas e o concreto frio. Escolha aquele projeto que tenha humanidade. Aquele que foi desenhado para pessoas, que tenha alma e que desafie o horizonte do jeito certo. Não me decepcione.
— Pode ir, cara. Eu cuido disso. Eu juro — Nathan respondeu, a seriedade finalmente assumindo o controle do seu rosto.
— Eu vou ajudá-lo — Diego afirmou, segurando a planilha com firmeza.
Saí da sede da Blackwood sentindo meu coração acelerado, batendo contra as costelas como um motor desregulado. Havia meses que eu não ia para casa, meses que eu mal falava com a minha avó devido à carga horária esmagadora do Horizon. E como eu não ficava em casa e nem atendia as chamadas no telefone fixo do meu avô... Droga! A culpa pesava mais que uma viga de chumbo.
Passei na escola do Ravi como um furacão. Dei explicações rápidas para a diretoria e pedi que o chamassem na sala. Ele viu a expressão no meu rosto e perguntou o que houve; eu expliquei a situação e, graças a Deus, ele não questionou nada, apenas pegou a mochila. No jato, o silêncio entre nós foi absoluto, quebrado apenas pelo som das turbinas cortando o Atlântico.
***Londres – Horas Depois***
O corredor do hospital cheirava a antisséptico e morte iminente. Avistei minha avó, Helena, sentada em uma cadeira de espera. Ela parecia ter envelhecido dez anos em um dia. Assim que me viu, ela se levantou e desabou no meu abraço, chorando de um jeito que me partiu ao meio.


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