***Porto Alegre – Após duas semanas em Londres**
O jato tocou o solo de Porto Alegre na manhã de quarta-feira. Eu não tive tempo de passar em casa. Fui direto para a sede da Blackwood & Co. Vesti meu melhor terno, ajeitei o relógio e entrei no auditório principal. Hoje era o dia. A apresentação das dez startups e projetos selecionados para o Blackwood Horizon. E o dia de assumir como CEO. Não diria que estava nervoso, mas estava confiante e com aquele frio na barriga de quem sabe que a vida muda hoje.
O silêncio foi absoluto quando entrei; os quase 600 funcionários estavam esperando a minha apresentação. Nathan e Diego estavam sentados na banca, me olhando com uma mistura de alívio e expectativa. Lorenzo estava lá também, com a caneta pronta. Assinei o termo de posse ali mesmo, na frente de todos, antes de começar a sessão.
— Senhoras e senhores — anunciei, minha voz ecoando com a autoridade que eu finalmente aceitei carregar. — Eu sou Rocco Blackwood, o novo CEO desta companhia. Eu agradeço imensamente a Lorenzo Blackwood por tudo, e espero que possamos fazer um bom trabalho. A equipe de avaliação venha comigo para sala de reuniões. Vamos escolher os melhores quatro projetos e fazer história: construir o maior e mais imponente resort do Brasil. Quero ver se o que vocês trouxeram tem a alma que este horizonte exige.
Sentei-me na poltrona central. Eu era oficialmente o dono do jogo. E estava louco para ver quem seriam as pessoas interessantes desta vez..
As primeiras seis apresentações foram um teste de paciência. Seis empresas, seis discursos ensaiados e quase nada de alma. O projeto da Gouveia Arquitetura foi o único que realmente entregou uma estrutura técnica de respeito — uma planta impecável, assinada por um tal de Victor Gouveia. Eles tinham um designer moreno que, admito, era um gênio da volumetria, e uma mulher morena chamada Sofia, com traços indígenas que exalavam uma autoconfiança perigosa. No papel, até agora, eles tinham o melhor projeto.
— Eu preciso de um café ou vou desmaiar de tédio — resmunguei, tirando o paletó e jogando-o no encosto da cadeira. Puxei as mangas da camisa branca até os cotovelos e afrouxei a gravata. Meus ombros doíam e o fuso horário de Londres ainda cobrava seu preço.
— Vou buscar para nós, o serviço de copa está lento — Nathan disse, levantando-se e saindo da sala de reuniões.
Enquanto ele não voltava, recebemos um arquiteto do interior de Goiás. O cara era bruto, mas o projeto dele era fenomenal. Em vez de um complexo espalhado, ele desenhou um edifício que parecia brotar da terra como um monumento. Geometria incrível.
Dez minutos depois, a porta se abriu e Nathan entrou parecendo que tinha sobrevivido a uma inundação. A camisa social dele estava encharcada de café, grudada ao peito.
— Mas que porra é essa, Nathan? — perguntei, segurando o riso.
— Uma mulher louca! Uma desastrada, descompassada mental me atropelou no corredor — Nathan bufou, limpando o braço que parecia estar ardendo pela temperatura do líquido. — Ela derramou o copo inteiro em mim e nela. Tem gente que precisava realmente olhar por onde anda.
Eu não aguentei e cutuquei o Diego que, ao ver a cena, começou a rir junto quando expliquei sobre o banho quente do nosso amigo.
— O grande sedutor de Porto Alegre derrotado por uma cafeteira ambulante. O mundo está mudando, Nathan — Diego debochou.
— Riam. Riam mesmo — ele resmungou, sentando-se e tentando se limpar com os guardanapos que estavam sobre a mesa.
As luzes do auditório se apagaram para a próxima apresentação. Uma loira bonita entrou primeiro para ajeitar os cabos, e Nathan, como o safado que é, já se inclinou para frente.
— Bom, pelo menos na próxima equipe também tem alguém bonita. Olha aquela ali... — ele sussurrou.
Outra mulher entrou na sala logo depois. O barulho dos sapatos dela ecoou no silêncio. Eu estava olhando para o tablet para confirmar os dados da próxima apresentação, mas quando levantei os olhos e foquei... meu cérebro deu um curto-circuito. Eu cocei os olhos, certo de que a falta de sono em Londres estava criando alucinações.
O ar sumiu dos meus pulmões. Que surpresa. Era a ruiva maldita.


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