POV/ SKY
Incomodava muito. Eu já estava odiando até essa inglesa imaginária.
Até poucos dias atrás, o Rocco não me dava um segundo de paz. Ele estava em todo lugar. Aparecia na porta do hospital, rondava a empresa, mandava mensagens no meu app, mantendo a presença dele cravada na minha vida como uma sombra inescapável.
Eu sabia exatamente onde ele estava e o que estava fazendo. Agora, ele tinha cruzado o oceano e sumido no mapa sem deixar rastros.
Abri o app de mensagens e procurei a nossa conversa antiga. Comecei a rolar a tela para cima, lendo cada frase que tínhamos trocado desde o primeiro dia. Eu já tinha decorado aquelas mensagens. Sabia exatamente onde cada vírgula estava colocada, cada provocação, cada ordem que ele tinha me dado.
Parei na barra de digitação. Posicionei os polegares sobre o teclado, sentindo a palma da mão suar. Eu não queria dar o braço a torcer. Eu fui embora, eu deixei ele daquele jeito, e o meu orgulho berrava para eu continuar quieta. Mas a agonia falava bem mais alto.
Digitei: "Oi..."
Fiquei encarando a tela por três segundos inteiros. Oi? Sério, Sky? OI? Era isso? Depois de tudo o que aconteceu, eu ia reaparecer igual uma tia distante comentando foto de aniversário no perfil dos outros? Apaguei tudo na hora.
Digitei de novo: "Você está na Inglaterra?"
Li e reli. Claro, genial.
Ele ia perceber na hora que eu estava rastreando a vida dele do outro lado do mundo. Parecia que ele tinha atravessado o oceano de pedalinho e eu estava no farol vigiando. Apaguei antes de enviar.
Tentei outra vez: "E aí, como é que você está?"
Horrível.
Parecia que eu estava fazendo pesquisa de satisfação do consumidor. Faltou só colocar: nota de zero a dez, como foi a sua experiência sendo abandonado na cama? Apaguei imediatamente.
Digitei com raiva: "Ficou alguma questão pendente da nossa última conversa?"
Franzi a testa. Questão pendente? Eu quase escrevi uma ata formal de reunião de diretoria. Só faltou assinar como: atenciosamente, Departamento de Recursos Humanos. Apaguei com gosto.
Insisti mais uma vez: "Você está com raiva de mim?"
O meu orgulho deu um soco direto na minha autoestima.
Nem morta que eu deixaria transparecer o quanto o silêncio dele estava me afetando. Apaguei o texto com força.
Tentei até uma desculpa esfarrapada: "Acho que esqueci um brinco aí na sua casa."
Eu nem usava aquele tipo de brinco. Cogitei trocar a frase para: "Acho que esqueci a minha dignidade aí na sua sala". Essa, sim, estaria tecnicamente correta.
— Meu Deus... o que é que eu estou fazendo da minha vida? — sussurrei para o quarto vazio, a minha voz saindo falhada pela agonia.
Respirei fundo. Peguei o celular de novo. Abri a conversa outra vez. Fechei. Abri. Fechei. Abri. A minha tela parecia uma porta automática de shopping abrindo e fechando sem parar.
— Eu não vou mandar mensagem — decretei para mim mesma.
Cinco segundos depois, os meus polegares já estavam flutuando sobre o teclado novamente.
Bloqueiei a tela. Desbloqueiei. Bloqueiei. Desbloqueiei.

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