POV/ SKY
Apertei os passos, me preparando mentalmente para o pior cenário do mundo. Mas quando dei dois passos para dentro do quarto, o meu corpo travou por completo.
O meu pai não estava deitado e inerte na cama, preso aos aparelhos como esteve durante todo esse tempo. Ele estava sentado na beirada do colchão, apoiando as costas nos travesseiros erguidos, com os olhos abertos e focados na porta.
A minha bolsa caiu no chão no mesmo segundo.
— Pai... — o sussurro saiu rasgado da minha garganta.
Esqueci médicos, esqueci dores, esqueci o cansaço e qualquer orgulho. Corri pelo quarto e me joguei nos braços dele, envolvendo o pescoço do meu pai com toda a força do meu corpo, tomando o cuidado de não machucar a sua pele frágil. Colei o meu rosto no ombro dele, sentindo o cheiro familiar do seu abraço, e desabei em um choro alto, pesado e libertador.
Senti a mão dele, ainda fraca e trêmula, subir devagar pelas minhas costas, pousando na minha nuca para me acolher.
O meu pai pigarreou, puxando o ar com uma dificuldade enorme, a voz saindo rouca, falhada, mas perfeitamente audível:
— S-Sky... minha... filha...
O som da voz dele pronunciando o meu nome fez o meu peito explodir em mil pedaços de felicidade. Descolei o meu rosto do seu ombro, segurei as duas mãos trêmulas dele entre as minhas e enchi a sua bochecha e a sua testa de beijos, com as lágrimas lavando o meu rosto sem parar.
— Eu estou aqui, pai... eu estou aqui! — respondi, rindo no meio do choro, abraçando o corpo dele de novo e sentindo que, pela primeira vez em semanas, a minha vida finalmente voltava a fazer sentido.
O médico se aproximou com um sorriso calmo no rosto e colocou a mão no meu ombro, me puxando suavemente para um canto do quarto enquanto o meu pai descansava a cabeça no travesseiro.
— Foram semanas intensas de fisioterapia diária, exames constantes e várias transfusões de sangue — o doutor explicou com tom sereno. — Conseguimos limpar e neutralizar a maior parte da substância tóxica que estava presa no organismo dele, impedindo que os impulsos nervosos e a musculatura funcionassem. Nós já colhemos o material e mandamos direto para a biópsia para identificar o composto exato.
A minha cabeça deu um nó na mesma hora. Passei a mão pelo rosto, sentindo o suor frio na minha pele enquanto o pavor tomava conta de mim.
— Biópsia? Meu Deus... isso vai virar um processo judicial, não vai? Vão chamar a polícia, vão investigar, vão vir atrás da mim... Doutor, eu não estou com cabeça para lidar com advogados ou responder processo agora, eu nem sei como organizar isso.
O médico segurou o meu braço com firmeza e deu um riso baixo para me tranquilizar.
— Fica tranquila, Sky. Os senhores Blackwood vão cuidar de absolutamente tudo sobre essa parte legal e médica.
Tranquei o maxilar, franzindo a testa.
— Quê? Os senhores Blackwood? O Rocco?
— Bom... ele também — o doutor respondeu com uma piscadela simpática. — Mas a estrutura da empresa inteira está dando suporte total ao caso do seu pai.
Engoli em seco. Senhores Blackwood... no plural. Devia ser a diretoria inteira da empresa se movendo por trás dos panos. Uma onda de gratidão gigante misturada com um nó de impotência se apertou no meu peito. Eu nem trabalhava oficialmente lá de verdade ainda, era apenas uma prestadora de serviço temporária, e não fazia a menor ideia de como ou quando conseguiria pagar por tudo o que eles estavam fazendo pela minha vida.
Levei a palma da mão à testa e dei uma batida leve na minha própria cabeça.
— Para de pensar nisso agora, Sky. Foca no seu pai — murmurei para mim mesma.
Puxei o celular da bolsa para ligar para a minha irmã. Eu precisava gritar aquela notícia para alguém. Disquei o número da Moon, escutei chamar até cair na caixa postal e tentei de novo. Nada.
Gravei um áudio correndo, com a voz embargada:
— Moon, me liga assim que você ver essa mensagem, pelo amor de Deus! Eu tenho a melhor notícia da nossa vida! O pai falou meu nome, ele acordou de verdade, tá consciente, na verdade mais que consciente! Me liga!
Assim que enviei o recado, o celular vibrou com a chegada de um e-mail oficial. Abri a notificação no automático.
Era uma intimação digital do tribunal. A segunda audiência do processo contra os Gouveia tinha sido marcada para exatamente dali a três semanas. O texto era cheio de termos jurídicos frios, exigindo a minha presença obrigatória e acrescentando vários avisos formais sobre manutenção do decoro, respeito às autoridades e graves penalidades em caso de desacato no tribunal.
Respirei fundo, sentindo o peso do mundo desabar sobre os meus ombros de uma vez só.

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