POV: SKY
Acordei com uma martelada violenta bem no meio da minha testa.
Pisquei os olhos devagar, lutando contra a luz clara que entrava pela fresta da cortina. Olhei em volta e reconheci o teto do meu próprio quarto, as paredes conhecidas e o cheiro do meu lençol.
— Meu Deus... como foi que eu vim parar aqui? — murmurei com a voz rouca, a garganta completamente seca, parecendo um pedaço de lixa.
Tentei me sentar na cama, mas a minha cabeça deu uma pontada tão dolorida que tive que levar as mãos às têmporas e soltar um gemido arrastado. A ressaca estava destruindo o restinho da minha sanidade mental.
Rolei na cama procurando o celular.
"Calma."
Respirei.
"Você não fez nenhuma besteira."
Respirei de novo.
"Você é uma mulher adulta."
Outra respirada.
"Responsável."
Mais uma.
"Madura."
Mais uma.
"Controlada."
...
"Civilizada."
...
"Você paga imposto."
...
Desbloqueei a tela.
...
Meu Deus.
Meu Deus.
MEU DEUS.
Abri o histórico do aplicativo de conversas e dei de cara com o desastre completo da madrugada.
Uma ligação. 01:11.
— Ah... — suspirei. — Tudo bem. Uma ligação. Isso acontece. Pessoas cometem erros. Jesus perdoou muita gente.
Continuei descendo a tela.
Outra ligação. 17:48.
...
Dezessete minutos? DEZESSETE MINUTOS?!
— Eu não liguei... Eu realizei uma assembleia extraordinária! — ditei em voz alta para o quarto vazio, me desesperando.
Continuei rolando e quase caí da cama.
Áudio. 14:32. Outro. 08:57. Outro. 05:41. Outro. 02:18. Outro. 00:47. Outro. 09:03. Outro. 03:56. Outro. 16:09.
...
Eu não mandei mensagem. Eu disponibilizei uma série documental! A N*****x fazia temporada menor!
O meu dedo começou a tremer. Não. Não. Não...
Rolei mais a tela.
Foto enviada.
— FOTO?! QUE FOTO?! PELO AMOR DE DEUS, QUE FOTO?! — dei um grito abafado, sem ter coragem de clicar no arquivo para abrir.
Continuei descendo.
Uma figurinha. Outra figurinha. Um GIF de uma capivara dançando.
Fiquei olhando. A capivara ficou olhando de volta na tela. Nenhuma de nós duas sabia explicar aquele momento.
O meu dedo, por masoquismo, apertou o play em um dos áudios. A minha própria voz saiu da caixa de som do celular, arrastada, alta e totalmente descontrolada:
— "VOCÊ NÃO MANDA EM MIM, ROCCO BLACKWOOD!"
Três segundos de silêncio na gravação.
— "...mas você podia mandar uma mensagem de vez em quando, né? Você já almoçou hoje?!"
Tranquei a respiração. No áudio seguinte:
— "EU TE ODEIO! E OUTRA COISA! EU PESQUISEI! A INGLATERRA TEM MUITA CHUVA! LEVA CASACO! E NÃO ACEITA CHÁ DE ESTRANHOS!"
Parei o áudio no mesmo segundo, cravando as unhas no colchão.
Enquanto eu metralhava o homem com podcasts, as mensagens dele iam entrando no meio da tempestade:
"Vai dormir, Sky." "Você tá bêbada." "Para de mandar áudio." "Você acabou de mandar outro." "Sky..." "Eu tô no avião. Chego amanhã. Vai pra cama."
E as minhas mensagens escritas enviadas logo depois:
"Não responde." "Tô falando sério." "Não ousa responder." "Porque eu não me importo." "Aliás, esquece." "Nem lê." "Boa noite." Dois minutos depois: "Você já dormiu?" Mais um minuto: "Tá." Mais um: "Ridículo." Mais outro: "Boa noite de verdade." Mais outro: "Bloqueado." Mais outro: "Como bloqueia alguém sem bloquear?"
Enterrei o rosto no travesseiro.
— Eu vou mudar de país. Eu preciso sumir do mapa.

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