POV: ROCCO
Eu atravessei o corredor disposto a colocar um ponto final naquela palhaçada.
Eu vinha pronto para soltar a bomba na cara de todo mundo de uma vez: "Eu não vou me casar com a Jussara, eu amo outra pessoa e é com ela que eu vou ficar".
E eu sabia o tamanho da loucura que era aquela frase. Falar a palavra "Bittencourt" dentro daquela casa era o equivalente a acender um fósforo dentro de um depósito de pólvora.
Dez anos atrás, o acidente de carro não tinha levado apenas os meus pais. Tinha levado também o meu primo o filho biológico do meu tio Lorenzo, irmão de criação do Christian e deixado o Ravi destruído por dentro, sobrevivendo como o único garoto preso naquelas ferragens. E a minha família inteira culpava o pai da Sky por aquela tragédia.
Somava a isso a diferença de classe, o dinheiro, os contratos... mas eu não me importava. Eu estava disposto a peitar os meus avós, a imprensa, o mercado financeiro e quem quer que fosse por aquela ruiva.
Eu só não contava com o comitê de chantagem biológica montado na sala.
Caminhei pelo corredor espaçoso da mansão até a sala de estar principal. O ambiente exalava opulência. No sofá central, o pai da Jussara estava sentado de forma imponente. Ele era um senhor negro de barba totalmente branca, vestindo um terno sob medida cujos botões eram feitos de ouro puro. Ele usava colares grossos de ouro no pescoço e anéis pesados nos dedos, exalando a riqueza absurda da sua família, que dominava o setor de mineração e finanças.
Ao lado dele estava a Jussara. Ela usava o cabelo todo trançado em um estilo afro impecável que caía pelos ombros. Ela era uma mulher negra espetacular, dona de uma beleza indiscutível e de curvas marcantes. Se a minha cabeça e o meu coração não estivessem completamente ocupados por uma certa ruiva gordinha no Brasil, qualquer homem na minha posição se interessaria por ela na hora. Mas para mim, a presença dela ali era apenas um transtorno.
A minha avó Helena veio ao meu encontro assim que pisei na sala.
— Meu neto! Que bom que você chegou bem — ela disse, me abraçando de leve.
— Oi, vovó — respondi, dando um beijo carinhoso na bochecha dela.
Caminhei até a poltrona onde o meu avô Heitor estava sentado. E foi ali que o meu discurso de coragem morreu antes mesmo de nascer.
O velho estava com um aparelho de monitoramento cardíaco preso ao braço e um pequeno medidor acoplado no peito por baixo da camisa. A engenhoca apitava em um ritmo lento, irritante e contínuo.
— Como o senhor está, avô? — perguntei, me abaixando perto dele.
— Indo, Rocco. O médico colocou essa engenhoca aqui para medir os meus batimentos durante o dia todo e proibiu qualquer tipo de esforço ou alteração emocional — o velho respondeu com a voz pausada. — Não posso me irritar com nada, se não o meu coração para de vez. Não aguento outra cirurgia.
Mordi o interior da minha bochecha com tanta força que senti o gosto de sangue na boca.
Brilhante. Espetacular.
Bastava eu falar "Sky Bittencourt". O aparelho apitava diferente, o cardiologista ganhava um paciente novo e eu virava oficialmente o neto que matou o avô.
Eu estava completamente encurralado.
Voltei a minha atenção para os convidados, engolindo a minha raiva. Fui até o pai da Jussara e apertei a mão dele com firmeza.
— É um prazer revê-lo, senhor.
— O prazer é meu, Rocco. Você está um homem de respeito — o velho respondeu, ajeitando a corrente de ouro no peito.
Me virei para a Jussara. Peguei a mão dela, dei um beijo cortês nas costas da sua pele e ela se levantou, me dando um beijo social na bochecha.
— Como foi o voo, Rocco? — ela perguntou, com a voz mansa e calculada.
— Tranquilo, sem atrasos — respondi, mantendo a postura fria.
A minha avó tomou a frente da conversa, ajeitando a postura no sofá com aquele ar de matriarca que manda em meio mundo.
— Rocco, nós estávamos organizando os detalhes com a psicóloga do Ravi antes de você chegar. Ela explicou que essa terapia familiar não vai ser feita em um consultório comum de cidade.
Franzi a testa.
— Como assim? Como vai funcionar isso?
— A médica recomendou um retiro completo — a minha avó explicou, como se estivesse announcing um passeio no parque. — Nós reservamos um resort exclusivo e isolado no interior, e você, o Ravi e a Jussara vão passar duas semanas inteiras lá dentro focados nessa dinâmica.
A minha respiração travou na garganta. O meu cérebro simplesmente se recusou a processar o restante da frase.
— O quê? Nós três? — franzi a testa. — Desde quando a Jussara virou membro da minha família?


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