POV: ROCCO
Custei a dormir naquela noite. Passei horas rolando na cama de um lado para o outro, encarando o teto do quarto enquanto a minha cabeça parecia um motor ligado em rotação máxima.
Peguei o celular inúmeras vezes, digitei, apaguei, pensei e desisti. Eu ia falar o quê para ela? "Oi, Sky, só para avisar que estou indo para um resort isolado passar duas semanas com o meu irmão e com a mulher que a minha família quer me obrigar a casar"?
Impossível. Preferi engolir a minha vontade e dar o espaço que ela parecia querer, mesmo que o meu desejo fosse largar tudo e ir até o apartamento dela.
Na manhã seguinte, desembarcamos na costa de Cornwall, no sul da Inglaterra, rumo ao retiro.
Assim que o carro parou na entrada do resort, fomos recebidos com o protocolo rígido do lugar. A primeira regra era absoluta: desligar e entregar todos os aparelhos eletrônicos. Deixei o meu celular e o meu relógio numa caixa de madeira.
Estávamos officially e totalmente desconectados do planeta.
Eu vestia uma camisa de linho leve com as mangas dobradas e uma bermuda clara. O Ravi vinha ao meu lado, de cabeça baixa, vestindo um moletom fino apesar do clima agradável do litoral. Ele estava visivelmente contrariado, odiando a ideia de passar por aquilo.
A Jussara surgiu ao nosso lado usando uma saída de praia verde-esmeralda por cima de um biquíni escuro. A pele negra dela, retinta e brilhante sob o sol, destacava uma beleza que arrancava olhares de qualquer pessoa ao redor. Mas, para mim, ela continuava sendo apenas uma presença neutra. O meu cérebro já tinha dono.
O Ravi olhou para a Jussara de canto de olho e se aproximou de mim, falando baixo:
— Por que ela tá aqui, Rocco?
— Eu não faço a menor ideia, garoto — respondi, soltando o ar pelo nariz.
— Você vai casar com ela?
Olhei para o meu irmão e forcei um sorriso torto.
— Também não faço a menor ideia.
O Ravi soltou uma risada curta, balançando a cabeça.
— Vocês adultos são uma piada.
A recepção tentou nos encaminhar para as acomodações. A gerente do resort pretendia nos colocar na suíte principal, com um quarto para o casal e outro separado para o meu irmão. Eu cortei a mulher na mesma hora, sem dar margem para interpretações.
— Não. O meu irmão e eu vamos ficar na suíte familiar de dois quartos. A Jussara fica na suíte individual do outro bloco.
A Jussara não fez qualquer objeção. Ela apenas sorriu com tranquilidade, pegou a chave do quarto dela e assentiu com a cabeça, demonstrando uma maturidade que me surpreendeu.
A programação da semana foi entregue em um papel artesanal. Uma rotina completa desenhada pela equipe de psicólogos do resort para trabalhar o convívio, a saúde física e o reequilíbrio emocional do Ravi.
Ali, logo no primeiro dia, percebi a postura impecável daquela mulher. A Jussara não estava ali para me encurralar. Ela entendia a palhaçada dos nossos avós tanto quanto eu. Durante as refeições e nas caminhadas iniciais, ela se manteve presente o suficiente para ser educada, mas nos deu um espaço absurdo. Ela não invadia, não forçava conversa e não tentava nenhuma aproximação íntima. Agia como uma aliada madura, e eu passei a respeitá-la genuinamente por isso.

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