POV/ ROCCO
Aquele abraço limpou dez anos de poeira e abandono entre nós dois.
Nenhum trauma se cura sozinho ou com dinheiro. A dor só cede quando existe um centro de apoio real, alguém disposto a segurar a sua mão quando o chão desaparece. Se você não tem essa base por perto, precisa ter a coragem de pedir ajuda, porque ninguém foi feito para carregar o peso do mundo nas costas sozinho.
Nos dias seguintes, a transformação do Ravi foi algo surreal.
O peso esmagador nos ombros dele simplesmente evaporou. Pela primeira vez em anos, vi o meu irmão sorrir de verdade, com os olhos brilhando e a postura ereta. Ele começou a se engajar em cada atividade com uma energia renovada.
Fomos pescar no lago do resort e ele riu até chorar quando me viu quase perder a vara para um peixe pequeno. Cozinhamos juntos na aula de culinária e passamos horas jogando conversa fora na piscina aquecida. O garoto que parecia um fantasma fechado estava finalmente voltando a viver, descobrindo que merecia estar ali.
A Jussara participava de longe, nos incentivando e rindo das nossas piadas, mantendo sempre aquele limite respeitoso que me fez admirá-la como pessoa.
A primeira semana com o meu irmão foi perfeita. O Ravi estava recuperando a vida dele, e eu estava recuperando o papel de irmão que nunca deveria ter abandonado.
No sábado à noite, o resort organizou um jantar especial com música ao vivo e liberação de bebidas alcoólicas para celebrar o fim da primeira etapa do retiro.
Sentei-me no balcão do bar ao lado do Ravi, segurando um copo de whisky com gelo. A Jussara estava em uma mesa mais afastada, conversando com outros hóspedes e nos deixando totalmente à vontade.
O meu irmão deu um gole no suco dele, deu um suspiro fundo e me olhou com uma expressão serena que eu nunca tinha visto no rosto dele.
— A semana foi foda, Rocco. Eu me sinto... leve. De verdade.
— Foi foda mesmo, garoto. Você tá com outra cara, outro brilho no olho.
— É... mas eu sei que na segunda-feira o vovô, a vovó e o pai da Jussara chegam aí para passar a segunda semana com a gente, né?
Suspirei, virando o resto do whisky na garganta e sentindo o álcool queimar.
— Pois é. O cerco de verdade começa na segunda-feira.
O Ravi sorriu de canto, dando um tapinha no meu braço com cumplicidade.
— Acalma o coração. Você me salvou essa semana... agora sou eu que vou te ajudar a sobreviver aos velhos.
Olhei para o meu irmão e sorri de volta. Recuperar o Ravi tinha sido a maior vitória da minha vida.
Ficamos a tarde inteira e o inicio da noite, conversamos ele me contou muitas histórias e explicou como se sentia e muitas outras coisas.
Nunca me senti tão perto dele como me senti dessa vez.
O Ravi foi deitar mais cedo, exausto mas com uma fresta de paz no rosto que eu não via há dez anos. Fiquei sozinho na borda da piscina aquecida do resort, encarando o reflexo das luzes na água e segurando o meu copo de whisky.
O som de passos leves no piso de pedra me fez girar o pescoço. Era a Jussara. Ela trazia uma taça na mão e aquele sorriso calmo de quem sabia exatamente o poder que tinha.
— Oi — ela disse, parando perto da minha espreguiçadeira. — Como tá o seu irmão? Ficou melhor?
— Tá sim. O garoto tá renovado — respondi, dando mais um gole na bebida. Olhei para ela de cima a baixo, sem paciência para rodeios. — Mas e você, Jussara? Qual é o seu plano afinal?
Ela soltou uma risada baixa, encostando-se na mureta.
— Eu não tenho plano nenhum, Rocco.
— Ah, fala sério. Conta outra.
— Bom... planos eu até teria, se você facilitasse as coisas. Mas você não facilita nada.
Soltei o ar pelo nariz, mantendo a guarda alta.
— Vamos beber um pouco e conversar — ela continuou, dando um passo na minha direção. — Já que a gente precisa pensar no que vai fazer de acordo com a nossa relação.
Riquei, balançando a cabeça.
— Que relação, mulher? A gente não tem uma relação.
— É claro que a gente tem — ela retrucou, aproximando-se mais um pouco.
O perfume dela, floral e marcante, atingiu as minhas narinas na hora. Involuntariamente, meus olhos desceram para o decote do vestido leve que ela usava. Eu sou homem, afinal de contas, e a anatomia da Jussara não passava despercebida por ninguém. Mas o meu corpo reagiu de um jeito preguiçoso, quase anestesiado. O Big Black deu um sinal vago de vida e descansou de novo, completamente desinteressado.
"Obrigado, Big Black", pensei, sentindo um alívio cínico no peito. O meu amigo só sabia perder o juízo de verdade quando aquela ruiva doida estava por perto.
Jussara se sentou na espreguiçadeira ao lado, cruzando as pernas e me encarando.
— E aí? Você gosta de alguém de verdade, não gosta?
Olhei para o fundo do meu copo antes de responder.
— Gosto.
— Me fala mais dessa pessoa. Vamos conversar de verdade.

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