POV/ ROCCO
Puxei o ar com força, o coração disparando contra as costelas, e deslizei o polegar pela tela no mesmo segundo em que o telefone vibrou.
Colei o aparelho no ouvido.
— Sky? Oi! Aconteceu alguma coisa? Você tá bem?
Do outro lado, silêncio.
Só a respiração dela.
Lenta.
Pesada.
Fiquei completamente imóvel na cama.
— Sky?
...
— Sky, fala comigo.
Mais alguns segundos.
Até que a voz dela finalmente apareceu.
Arrastada.
Mole.
Como se cada palavra pesasse cinco quilos.
— Você demorrrr... demor... demoloooou...
Franzi a testa.
— O quê?
— Três...
Silêncio.
— Três...
Outro silêncio.
— Toc.
Pisquei algumas vezes.
— Três toques?
— Eu contei tudinho.
Respirei discretamente, sentindo um alívio escapar do meu peito.
Pelo menos ela estava falando.
— Sky... aconteceu alguma coisa?
Ela fungou.
— Aconteceu.
Meu estômago afundou.
— O quê?
Mais silêncio.
— Você demorou pra atender.
...
Fiquei olhando para a parede escura do quarto.
Era isso.
A tragédia era eu ter atendido depois de três toques.
Passei a mão pelo rosto, fechando os olhos por um instante.
— Você tá bravo comigo?
— Não.
— Tá.
— Eu não tô.
— Tá sim...
Ela soltou um suspiro dramático.
— Seu ignolante...
Silêncio.
— Egocen...
Ela travou.
— Egocen...
Outro silêncio.
— Aquela palavra feia.
Não consegui segurar um sorriso.
— Egocêntrico?
— Isso!
Ela comemorou como se tivesse vencido um campeonato.
— Isso aí!
Silêncio.
— Mas eu ainda tô brava.
— Eu percebi.
— Você gritou comigo.
— Eu falei baixo.
— Gritou.
— Não gritei.
— Nossa...
Ela fungou outra vez.
— Grossão.
Deixei uma risada escapar pelo nariz.
— Sky... você bebeu?
Silêncio.
— Sky?
...
— Hã?
— Você bebeu?
Ela pensou tanto para responder que achei que tivesse dormido.
— Talvez...
— Talvez quanto?
Silêncio.
— Uns...
...
...
— Copos.
Sorri.
— Quantos copos?
— Os de vidro.
Fechei os olhos.
Meu Deus do céu.
— Onde você tá?
Silêncio.
— Sky?
...
— Hm?
— Onde você tá?
Ela ignorou completamente a pergunta.
— Você já jantou?
Pisquei sem entender.
— Já.
Ela ficou quieta.
Uns bons cinco segundos.
— Nossa.
— O quê?
— Jantou sem mim.
Balancei a cabeça, rindo sozinho.
— Eu tava na Inglaterra, Sky.
— Mentira.
— Como mentira?
— Porque...
Ela fez um esforço visível para organizar o próprio raciocínio.
— Porque a Inglaterra é... lá.
Fiquei em silêncio.
Não fazia ideia de como responder aquela lógica.
— Sky, aconteceu alguma coisa?
— Aconteceu uma tragédia — ela anunciou de novo, com toda a solenidade do mundo.
Meu sorriso desapareceu.
— O que aconteceu?
Outra pausa.
Ouvi um copo bater sobre madeira.
Depois o barulho abafado de alguém rindo ao fundo.
— Você.
— Eu?
— Você aconteceu.
Passei a mão pela testa.
— O que eu fiz?
Ela bateu alguma coisa na mesa.
— VOCÊ FOI EMBORA, NÃO PRECISAVA!
A voz dela ecoou tão alta que precisei afastar o telefone da orelha.
— Não precisava nada!
— Sky...

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