POV/ ROCCO
"Hoje eu fui no hospital..." — a voz dela veio arrastada, cheia de pausas longas. — "O pai acordou. Ele abriu os olhos... olhou pra mim... e eu fiquei tão feliz, Rocco. Fiquei tão feliz de verdade... Mas você não tava lá. Seu idiota. Parabéns pra você. Perdeu o dia em que o meu pai acordou..."
Ela fez uma pausa de dez segundos. Dava para ouvir um som do vento batendo no microfone.
"Aliás... você sabia que o Arthur tem duas sobrancelhas? Eu nunca tinha reparado nisso. Duas. Uma do lado da outra..."
Pisquei devagar, tentando acompanhar o raciocínio destruído da ruiva.
"Pera..." — a voz dela diminuiu. — "Charlotte... Charlotte... Quem é Charlotte? Arthur, quem é Charlotte? Ah."
Outra pausa longa.
"Arthur... esse banco gira? Não gira? Mas tá girando. Eu acho que o banco tá girando..."
A voz dela deu uma fungada funda no microfone.
"Você sabia... que eu achei um pombo hoje na praça? Ele olhou pra mim com uma cara de deboche. Parecia você..."
E então, sem nenhum aviso prévio, a atmosfera do áudio mudou completamente.
A risada arrastada da Sky foi sumindo. O tom debochado ruiu. A voz dela foi ficando baixinha, embargada, pequena.
"Eu fiquei com tanto medo, Rocco..." — ela começou a sussurrar, e ouvi o som claro de uma lágrima escorrendo e a respiração dela travando na garganta. — "O meu pai acordou e eu queria tanto te dar um abraço. Eu queria olhar pra você e dizer que deu tudo certo... mas eu olhei pro lado e você não tava. Você sumiu. Todo mundo que eu gosto vai embora ou me deixa sozinha... Eu fiquei com tanta saudade de você que o meu peito doeu o dia inteiro. Eu tô com tanta raiva de você... mas eu tô com tanta saudade que eu acho que vou morrer..."
A minha risada travou na garganta no mesmo segundo.
O meu peito apertou de um jeito tão doloroso que a minha respiração parou. A farsa do noivado, a chantagem da Jussara, o peso dos meus avós... tudo sumiu da minha mente. Sobrou apenas a dor crua e sincera da mulher que eu amava chorando baixinho do outro lado do oceano por causa da minha ausência.
O áudio de dezesseis minutos terminou com o som do fungado dela.
Antes que eu pudesse assimilar o golpe no peito, a barra de notificações do meu celular desceu com um aviso do aplicativo do banco:
"Você recebeu uma transferência via Pix no valor de R$ 0,01. Remetente: Sky."
Abri o comprovante e li a mensagem que ela tinha escrito:
"pra voce nao dizer que nunca te dei nada"
Logo em seguida, o aplicativo apitou com mais alguns áudios picados entrando em sequência.
Dei o play no primeiro, de oito segundos. Dava para ouvir a voz dela cochichando ao fundo, falando diretamente com o rapaz:
"Arthur... Arthur, eu mandei um centavo pro Rocco..."
No áudio seguinte, de doze segundos, veio só o som da respiração dela pesada e ruidosa, um barulho estático de fundo e um resmungo totalmente incompreensível. No último, ela gravou apenas seis segundos de um silêncio absoluto antes de soltar um pigarro embolado e encerrar a gravação.
Puxei o ar com força, a lágrima que tinha acumulado no meu olho escorrendo pela bochecha enquanto uma risada emocionada e sem controle saía da minha boca. Aquela garota era única no mundo.
Não pensei duas vezes. Disquei o número dela de volta.
O telefone tocou apenas uma vez e a chamada foi atendida.
— Por que você tá me ligando?! — ela cobrou na hora, a voz embolada, arrastada e manhosa.
— Porque você acabou de me mandar um Pix de um centavo e uma enxurrada de áudios malucos, Sky — respondi, a voz saindo grave e suave. — E porque eu preciso falar com você.
— Eu tenho um segredo — ela soltou, num cochicho misterioso.
— Qual é o segredo, Sky?
— Não posso contar.
— Então não conta.
— Tá bom — ela respondeu.
Ficamos em silêncio por três segundos.
— Você não vai insistir?! — ela esbravejou, indignada.
— Tá bom, tá bom — rindo, ajeitei o telefone no ouvido. — Me conta, por favor. Qual é o segredo?
— Chega perto — ela instruiu.
— Sky, eu tô no telefone. Em outro país.
— Então aproxima o telefone da orelha! — ela mandou. — Mais perto. Mais.
— Tá na minha orelha, Sky.
— Agora fecha o olho.
— Fechei — menti, olhando para o teto.
— Mentiroso — ela descobriu na hora. — Eu sei que você não fechou. Fecha o olho, Rocco!
Fechei os olhos de verdade.
— Fechei. Pode falar.

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