POV: ROCCO
Por mais dois dias tive que ficar em Londres. Acompanhei meu avô no hospital depois que ele tirou o medidor de pressão, conversei com o médico e ele me disse que o marcapasso do meu avô não estava conseguindo manter o coração bombeando corretamente. Ele precisava de uma cirurgia, porém não aguentaria o procedimento.
Queria ter trazido o Ravi comigo, mas deixei ele com meus avós porque o pequeno pediu. Era mais seguro e meu avô apreciava a companhia dele. Acredito que o Ravi é a última lembrança dos pais dele e do meu primo, já que só ele sobreviveu a tudo.
Passei cada um daqueles minutos de olho na tela do celular, esperando qualquer notificação, uma mensagem curta ou outra ligação desajeitada da Sky. Nada veio. Eu sabia exatamente o motivo: a ressaca moral devia ter cobrado um preço alto e ela devia estar morrendo de vergonha de encarar o visor do telefone depois de tudo o que me disse naquela madrugada.
Assim que o voo pousou em Porto Alegre, fui direto para casa, tomei um banho demorado e me arrumei sem pressa. Era o dia da vistoria em campo dos projetos de revitalização. Peguei o carro e segui pela cidade para inspecionar cada uma das praças entregues pelas equipes.
O sol da manhã batia forte em Porto Alegre.
Primeiro, passei na praça beira-mar para avaliar a execução da equipe Lacerda. Em seguida, dirigi até a praça da prefeitura para conferir o resultado final da equipe Gouveia. Analisei os papéis, conferi o acabamento do espaço, fiz algumas anotações na minha prancheta e segui para a praça de brinquedos infantis, o local reservado para a revitalização da equipe Zenitê.
Estacionei o carro e caminhei até a área do playground. Procurei a cabeleira ruiva assim que me aproximei dos brinquedos, mas encontrei apenas duas pessoas organizando os croquis e as pranchas do projeto final. A Sakura segurava uma das pranchas e a Moon ajeitava os últimos detalhes na entrada do espaço. A Sky não estava ali.
Caminhei até elas, parando no meio do novo espaço infantil.
— Bom dia — cumprimentei, correndo os olhos pelo lugar vazio ao lado delas. — Cadê a Sky?
A Moon soltou a fita métrica que segurava e me olhou com a sobrancelha erguida, dando um suspiro curto.
— A Sky disse que estava passando mal — a Moon respondeu, adjusting a postura.
— Passando mal? — perguntei, segurando o canto da boca para não sorrir. — De verdade?
— Na verdade... — a Moon deu um riso fraco, balançando a cabeça. — É a ressaca da vergonha. Tem ligação direta com o dia em que ela gritou para a praça inteira que ia casar com você.
Olhei para a irmã dela e soltei um ar pesado pelo nariz, assimilando a fala.
— Ela precisa de um tempo, Rocco — a Moon completou, com a voz mais calma. — Para absorver tudo e conseguir te encarar sem querer se esconder debaixo da mesa.
— É, eu concordo com você — respondi, assentindo devagar. — Ela precisa desse tempo.
Ajustei a prancheta no braço e voltei a atenção para a estrutura dos brinquedos instalados e o acabamento impecável na minha frente.
— Vamos ao trabalho. Podem me apresentar o projeto da equipe Zenitê.
A Sakura deu um passo à frente e me entregou a pasta completa com os laudos técnicos de vistoria, as liberações de segurança e a planilha financeira.
Ela iniciou a explicação detalhando a durabilidade dos materiais e a disposição estratégica dos equipamentos. O parque infantil estava inteiramente montado na nossa frente: havia escorregadores modernos, balanços reforçados, um pula-pula gigante embutido no solo e uma área pavimentada dedicada a carrinhos b**e-b**e para as crianças.
Logo em seguida, a Moon assumiu a palavra para defender o conceito do design espacial.
A escolha das cores dialogava perfeitamente com a cultura de Porto Alegre, combinando o vermelho marcante do Inter com detalhes sutis em azul e branco, criando uma paleta vibrante, equilibrada e acolhedora. Passei os olhos pelos relatórios de custos e fiquei impressionado com a gestão financeira: a equipe tinha utilizado exatamente noventa e oito por cento do orçamento disponível, aproveitando cada recurso sem desperdício e mantendo um padrão de acabamento excelente.
Examinei os equipamentos um a um, testando a firmeza dos encaixes no solo e conferindo a precisão dos desenhos técnicos. Quando elas terminaram a exposição, ergui os olhos.
— O trabalho de vocês ficou excelente — declarei, olhando ao redor. — O conceito visual, a segurança dos brinquedos e a eficiência no uso dos noventa e oito por cento do orçamento foram exemplares.
Assinei a folha de vistoria e marquei a nota máxima para a equipe Zenitê. O resultado final era indiscutivelmente superior e a entrega técnica estava perfeita.

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