POV: SKY
— Vou pedir comida na sala e preparar o nosso banho.
— Eu quero batata.
— Vou pedir arroz.
— Batata.
— Feijão.
— Batata.
— Carne.
— Batata.
Ele pegou o celular na mesa de cabeceira.
— Você vai comer comida de verdade.
— Eu odeio você.
— Não odeia.
— Odeio um pouquinho.
— Também não.
— Nossa, como você está convencido.
— Você acabou de dizer que me ama.
— Eu estava emocionalmente vulnerável.
— Não anula.
— Anula, sim.
— Não anula.
Fiquei encarando as costas dele enquanto ele saía. Aquele homem parecia uma pintura feita à mão, o trabalho mais perfeito que Da Vinci poderia ter concebido na vida. Cabelo preto alinhado, olhos verdes intensos, um rosto esculpido, podre de rico, absurdamente talentoso... e estava ali, pelado na minha frente, cuidando de mim.
Olhei para o lençol. Olhei para a porta. Olhei para o teto.
— Eu estou namorando um exibicionista.
A voz dele veio do corredor:
— Eu ouvi!
— ERA PARA OUVIR!
— Eu também te amo!
Meu coração apertou, dessa vez, não de medo. Levei a mão ao peito e me joguei de costas no colchão. O mundo não ficava perfeito, os problemas continuavam existindo, mas eu finalmente tinha parado de lutar contra aquilo que eu queria.
Colei os olhos no teto branco do quarto e deixei o silêncio tomar conta do espaço.
Por alguns segundos, fiquei ali, imóvel.
Só respirando.
O problema é que o meu corpo tinha decidido colaborar com a paz, mas a minha cabeça aparentemente tinha recebido um convite para uma reunião de emergência.
A minha mente, que tinha ficado anestesiada pelo prazer e pela descarga de adrenaline das últimas horas, começou a girar a mil por hora. Passei a mão pelo meu peito, sentindo a pele ainda sensível aos toques dele.
Pensar depois de uma situação emocionalmente intensa era uma atividade extremamente perigosa para mim.
Eu lembrava de tudo o que tinha dito no elevador. De como eu tinha me rasgado inteira, entregando as minhas vulnerabilidades em uma bandeja para ele, praticamente com um cartãozinho escrito:
“Olá, Rocco. Aqui estão todos os meus traumas. Favor não utilizar contra mim.”
Fechei os olhos.
Ótimo.
Eu tinha feito aquilo.
Tinha contado tudo.
Tinha chorado.
Tinha admitted que o amava.
Tinha deixado o homem me ver completamente desmontada.
E agora ele queria conversar.
Aí veio a dúvida.
Aquele nó gelado no fundo da minha barriga.
A conversa que estava por vir tinha a ver com a outra mulher.
Com a pessoa que eu vi nas fotos.
Ou com a mulher que me disseram que estava ligada ao nome dele.
Meu cérebro começou a ensaiar mil cenários diferentes, criando diálogos, tragédias e finais de relacionamento com uma eficiência que provavelmente poderia render um emprego em alguma emissora de televisão.
Cenário número um: Rocco entra no quarto e diz que beijou ela.
Eu respondo com maturidade.
— Tudo bem.
Depois vou para o banheiro chorar.
Cenário número dois: ele diz que teve alguma coisa com ela enquanto a gente estava afastado ou que transou com ela.
Eu respondo:
— Entendo.
Depois pego uma cadeira e jogo pela janela ou na cabeça dele.
Não.
Cadeira não.
A cadeira era bonita.
Talvez um vaso.
Também não. Aquela casa provavelmente tinha vasos mais caros do que o meu apartamento inteiro.
Talvez eu simplesmente gritasse.
Cenário número três: ele diz que não aconteceu nada, eu acredito, descubro que aconteceu alguma coisa e passo o resto da vida sendo a mulher que acreditou no bilionário bonitão.
Excelente.
Eu já conseguia até imaginar a manchete:
ARQUITETA DESASTRADA É ENGANADA POR BILIONÁRIO E DESCOBRE A VERDADE QUANDO JÁ ESTÁ EMOCIONALMENTE ENVOLVIDA DEMAIS PARA DEVOLVER O HOMEM.
Abri os olhos.
— Meu Deus, eu preciso de terapia.
Mas a pior parte era que eu realmente não sabia o que faria.
Eu aceitaria?
Como uma mulher madura e decidida deveria reagir a isso?
Eu fingiria que não me importava?
Faria um escândalo?
Iria embora de vez?
Ou faria aquele negócio extremamente adulto de dizer que estava tudo bem e depois passaria os próximos oito meses lembrando da situação enquanto lavava louça?
Balancei a cabeça contra o travesseiro, fechando os olhos com força.
— Para.
Pensei mais um pouco.
— Não.
Abri os olhos.
— Para de pensar.
O meu cérebro ignorou.
E se ele disser que beijou ela?
Meu estômago embrulhou.
E se ele disser que engravidou ela e que eu vou ser madrasta?
Apertei os olhos.
O que eu faço?
Silêncio.
Eu mato ele?

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