POV/ SKY
— Desde aquela noite de chuva, a gente nunca mais tocou no assunto. As únicas duas vezes que eu estive com um homem na minha vida inteira foram com o Nathan. A primeira quando eu achava que ia morrer, e a segunda naquela tempestade. E agora o meu namorado quer ir para a cama comigo, quer dar o próximo passo na relação... e eu simplesmente travo. O meu corpo inteiro rejeita. Eu sinto como se estivesse traindo o Nathan, mesmo sabendo que a gente não tem nada e que ele é esse cafajeste assumido!
Levantei da minha cadeira, dei a volta na mesa e sentei ao lado dela, puxando o corpo dela para um abraço apertado.
— Sakura, coloca uma coisa na sua cabeça: você não tá traindo ninguém, mas você tá presa em um sentimento que nunca teve encerramento — falei com firmeza, acariciando as costas dela. — Vocês dois passaram por dores pesadas demais e se trancaram atrás de barreiras de silêncio e orgulho. O Nathan é um covarde que fugiu com medo da dor, mas vocês precisam ter uma conversa de verdade. Enquanto você não encarar essa ferida de frente, você não vai conseguir seguir a sua vida com homem nenhum.
A Sakura encostou a cabeça no meu ombro, desabafando todo o choro acumulado durante anos, enquanto a Mon servia um copo de água mineral para ela.
Ficamos ali dando apoio para a nossa amiga até o final da tarde. Eram quase cinco e meia quando o meu celular começou a vibrar em cima da mesa.
Peguei o aparelho e vi o nome na tela: Arthur Erotic Boys.
Franzi a testa, atendendo na hora.
— Arthur? Aconteceu alguma coisa?
— Sky? — a voz do Arthur veio do outro lado, acompanhada de um barulho característico de copos se chocando. — Oi, tudo bem? A gente já se conhece... Então, será que você pode vir aqui no bar buscar o seu namorado? Porque o homem tá completamente bêbado, jogado de cara no meu balcão.
Arregalei os olhos, me afastando um pouco da mesa.
— O Rocco tá bêbado?! Aquele homem me mandou mensagem mais cedo jurando que nunca ficava bêbado na vida!
O Arthur soltou uma risada baixa pelo telefone.
— Pois é... parece até um filme repetido, sempre acontece alguma coisa quando vocês se juntam. O Chris já levou o Nathan arrastado para o pronto-socorro para tomar glicose na veia e o Rocco apagou aqui gritando que a mulher dele tava vindo resgatar ele. Vem com calma que eu tô cuidando dele.
— Tô indo agora mesmo! — respondi, desligando a chamada.
Olhei para as meninas, guardando o telefone na bolsa com pressa.
— Amigas, eu preciso voar. Aquele armário de quase dois metros que eu chamo de noivo conseguiu a proeza de tomar um porre histórico no bar do Arthur e desmaiou no balcão.
A Sakura deu um riso fraco em meio às lágrimas e a Mon balançou a cabeça, rindo.
— Vai lá cuidar do seu bilionário — a Mon falou, levantando da cadeira. — Eu vou pedir um carro e levo a Sakura em segurança para casa.
— Obrigada, Mon. Sakura, vai para casa, descansa e a gente conversa amanhã com calma, tá bom?
Dei um beijo na testa de cada uma, peguei a minha bolsa e saí do restaurante em direção à calçada.
Enquanto chamava um carro para me levar até o Erotic Boys, fiquei pensando na bagunça que era a vida de todo mundo ali. O Nathan destruído de culpa, a Sakura sofrendo em silêncio e o Rocco comemorando a vida a ponto de cair duro no balcão de um bar.
Tudo aquilo acontecendo simplesmente porque as pessoas tinham pavor de abrir a boca e conversar. Eu não era nenhum exemplo de equilíbrio na terra, mas ver o sofrimento dos meus amigos me dava uma certeza absoluta: o silêncio sempre cobra um preço alto demais.
Respirei fundo, entrei no carro que tinha acabado de encostar e mandei o motorista seguir para o bar. Minha missão agora era resgatar um homem gigante e bêbado que achava que dominava o mundo.
O carro parou na frente do Erotic Boys. Paguei a corrida e desci direto para a entrada do bar. A porta lateral estava entreaberta e o salão estava silencioso, com as luzes baixas antes do horário de abertura noturna.
Entrei e a primeira imagem que tive foi impagável: um homem de quase dois metros de altura, com ombros largos de lutador e terno sob medida, completamente desmaiado com a cara chapada na madeira do balcão.
Não aguentei. Soltei uma gargalhada alta logo na entrada.
O Arthur estava atrás do balcão secando uma taça de vidro com um pano limpo. Ele ergueu os olhos, viu a minha cara de deboche e deu um sorriso de canto.
— É impressionante — o Arthur soltou, balançando a cabeça. — Quando não é você dando trabalho aqui depois de beber demais, é ele jogado no meu balcão. Vocês dois revezam o vexame com uma eficiência assustadora.

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