POV/ ROCCO
O normal seria eu odiar cada célula daquela mulher. Mas eu só conseguia pensar no peso do corpo dela desfalecendo nos meus braços e na forma como ela me olhou antes de apagar. Eu definitivamente preciso de um banho. E de respostas. E talvez um psiquiatra. Só talvez.
Algum tempo depois, a médica me mandou uma mensagem avisando que a Sky estava estável. O pessoal começou a se dispersar entre risos e cochichos que me davam náuseas. Antes que saíssem, parei diante de todos, fixando meu olhar principalmente na garota de traços indígenas que parecia liderar as piadinhas.
— Aqui dentro temos um ambiente corporativo sério — minha voz saiu fria, cortante. — Bullying ou provocações são estritamente proibidos. A colega passou mal e isso poderia ter acontecido com qualquer um de vocês. Não haverá novos avisos sobre isso. Estamos entendidos?
O silêncio foi imediato. O grupo se dispersou rápido, sem mais gracinhas.
Nathan, que estava entrando no saguão após ter trocado de roupa, parou e me olhou de cima a baixo. Ele apontou para o meu terno imundo com uma expressão de descrença.
— Que porra aconteceu com você? Saio por alguns minutos e você é atropelado por um caminhão de lixo?
— Fui atropelado pelo mesmo caminhão que você — respondi, entredentes — só que, ao invés de café, era vômito.
Nathan travou por um segundo e então explodiu em uma gargalhada, tentando ser discreto, mas falhando miseravelmente.
— Caraca! Eu vou ter que pedir as filmagens para a segurança e colocar para rodar em loop no meu escritório. Isso é ouro!
— Idiota — sibilei, sentindo o tecido grudando na minha pele. — Vou para o meu escritório. Tenho outras roupas lá.
— Acho que você deveria era ir para casa, Rocco. Você está um desastre.
— Vou daqui a pouco. Agora vá com o Diego e se organize. Afinal, você será o supervisor de equipes desse projeto.
Virei as costas e segui para o elevador privado. Eu precisava me limpar, mas, acima de tudo, precisava tirar a imagem da Sky Bittencourt desmaiada da minha cabeça. O problema é que, quanto mais eu tentava, mais pensava nela.
Passei no escritório primeiro. Troquei o terno por um conjunto limpo, mas a pressa era tanta que nem terminei de abotoar os punhos.
Quando cheguei ao leito, Moon ainda não tinha voltado. Sky estava lá, ocupando o espaço da maca com suas curvas, pálida contra os lençóis brancos. Ela estava apenas de saia e sutiã preto; as manchas vermelhas subiam pelo colo e pescoço, onde o café fervente tinha atingido a pele claríssima dela.
Chamei a enfermeira e entreguei uma das minhas camisas sociais reservas que peguei no armário. — Vista nela. Não quero que ela acorde sentindo aquele cheiro.
Pelo visto, a garota ia fazer um estoque de roupas minhas.
Fiquei parado no canto, os braços cruzados, observando o soro. A médica se aproximou com a prancheta. — Ela teve uma crise de gastrite nervosa aguda. O estresse foi o gatilho, mas o quadro é preocupante. Ela está anêmica, com vitaminas no limite e o coração irregular por exaustão. Além disso, a pele dela é sensível demais; o café causou uma queimadura de primeiro grau na parte superior dos seios e no colo. Já aplicamos uma pomada.
Encarei o rosto dela, as sardas destacadas pela palidez. Como alguém chegava a esse estado? Era negligência. Com ela mesma.
Moon entrou esbaforida, segurando uma bolsa. Eu expliquei o que aconteceu e, ao ver a irmã naquele estado, ela levou as mãos à cabeça. — Meu Deus... a culpa é minha, nossa.
— O que você quer dizer com isso? — perguntei, direto. — Estamos passando por muitos problemas, senhor Blackwood. A Sky... ela assumiu tudo sozinha. Ficou sobrecarregada, sem dormir, sem comer direito e teve que fazer esse projeto novo em duas semanas, sozinha.

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