POV: SKY BITTENCOURT
A claridade feriu meus olhos antes mesmo de eu conseguir abri-los totalmente. O teto era branco demais, limpo demais. Tentei engolir em seco, mas minha boca parecia um deserto de areia amarga.
Olhei para o lado, tonta. Moon estava ali, dormindo torta, escorada na beirada da minha cama. As lembranças vieram como um soco no estômago: o terno escuro, o cheiro de café, o som úmido do meu estômago desistindo da vida em cima do relógio de luxo dele.
— Ai, não... não, não, não! — Comecei a esmurrar o colchão em um surto silencioso de desespero.
Moon deu um pulo, esfregando os olhos, assustada.
— Sky? Você acordou! Você está bem? O que você está sentindo?
— Vergonha, Moon. Eu estou sentindo o peso de uma humilhação que nem sete encarnações apagam. Avisa que eu morri. Por favor, diz que eu morri!
— Que susto você me deu! — Ela ignorou meu drama, segurando minha cabeça e deixando algumas lágrimas caírem. — Achei que você ia passar dessa para melhor.
— Desculpa... — Murmurei, sentindo o peito apertar.
Ela apertou minha mão, escorou a cabeça na cama e chorou um choro aliviado. Passei a mão livre do soro pelos cabelos dela, tentando acalmá-la.
— Está tudo bem, está tudo bem... me desculpa.
Ficamos assim por alguns segundos, ouvindo o som da respiração dela e o ritmo das gotas do soro.
— E o papai? Como ele está?
— Pedi para a enfermeira ficar com ele um pouco.
Fechei os olhos. Enfermeira. Dinheiro. Os Gouveia não tinham feito o repasse do mês e a gente estava no vermelho. Olhei em volta, para o equipamento moderno e o silêncio caro do lugar. Minha mão foi direto para o acesso do soro.
— A gente tem que sair daqui. Agora. Moon, a gente não tem um centavo para pagar esse hospital! Imagina o que vão cobrar por esse lençol de mil fios aqui!
— Ei, nada de arrancar isso! — Uma enfermeira entrou no quarto, segurando uma bandeja com firmeza profissional. — Fique quietinha, Sky. Está tudo pago.
— Como assim pago? Alguém vendeu um órgão meu enquanto eu dormia? — Perguntei, levando a mão ao corpo, tateando a barriga e as costelas para ver se sentia algum corte ou dor nova.
— A Construtora Blackwood cobre tudo. Como vocês fazem parte do novo projeto e estão em estágio, o auxílio-saúde foi liberado. A diretriz mudou há pouco tempo, você deu sorte. Tratamento, internação e até estes remédios — ela apontou para um pacote com vários frascos — já foram faturados para a empresa.
Eu não estava entendendo nada. A lógica não entrava na minha cabeça febril.
— Eu preciso ir embora... preciso trabalhar — tentei me levantar, mas o mundo inclinou violentamente.
— Você não vai a lugar nenhum — a enfermeira me empurrou gentilmente de volta para o travesseiro. — Você ganhou uma semana de atestado. Precisa se recuperar.
— Uma semana? Eu comecei hoje! Eu atropelei o gerente, usei o terno do dono da empresa como balde! Se eu tirar uma semana de atestado, o meu crachá vai ser cancelado antes de eu aprender o caminho do RH!
— A gente vai dar um jeito, Sky...
— Não, a gente não. Eu vou dar um jeito. Sou sua irmã mais velha. Cabeça oca e desastrada, mas sou — passei a mão por suas bochechas. — Agora vai buscar minhas coisas, por favor.
Ela se levantou e foi, contra a vontade dela, mas ela também precisava de um banho e ver como nosso pai estava.
Ela saiu e o silêncio do quarto me engoliu. Comecei a listar mentalmente: aluguel, luz, internet, os aparelhos do papai, a faculdade da Moon, comida. A matemática não fechava. Nunca fechava.
Os sete mil do Alex já estavam sumindo; teve a viagem, as contas e mais contas. O restante iria para o salários das três enfermeiras e da fisioterapeuta.
— Do jeito que a coisa vai — sussurrei entre soluços, a voz falhando enquanto eu tentava desesperadamente recuperar o fôlego — eu vou ter que pedir para ser chicoteada para ganhar dinheiro no Ambrosia Club.
Eu estava lascada, endividada e completamente sozinha. Enterrei o rosto nas mãos, sentindo uma lágrima escapulir, depois outra, e de repente eu estava segurando os soluços.
Tentei chorar deitada, mas o pranto começou a me sufocar, o líquido salgado voltando e me fazendo engasgar. Sentei-me bruscamente, lutando para puxar o oxigênio. Meu coração disparou em um ritmo frenético, martelando contra o peito como se quisesse escapar daquela caixa torácica estreita. As mãos começaram a formigar e o quarto pareceu diminuir, as paredes brancas se fechando sobre mim e o tremor incontrolável do meu corpo começou aumentar, cada vez mais.
O aperto no peito, que antes era só uma angústia, começou a se transformar em algo físico. Uma pressão esmagadora, como se um elefante estivesse sentado sobre as minhas costelas. Tentei fazer o exercício que o rapaz bonito me ensinou — inspirar e respirar —, mas o ar não chegava aos pulmões. Ele parava na garganta, que parecia estar fechada por um nó de arame farpado.
Levou algum tempo até minha respiração normalizar e a sensação de ser comprimida passar. Olhei para o teto e um riso histérico e dolorido subiu pela garganta. Eu não sabia cantar, dançar ou contar piadas. Eu só sabia desenhar projetos para os outros roubarem.
Porra. O que é que eu vou fazer?

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