POV/ SKY
Depois de cinco minutos de negociação diplomática intensa para ele usar o banheiro correto e lavar as mãos, consegui arrastar o Rocco de volta para a cama.
Ele sentou na beirada do colchão, começou a apalpar os bolsos da calça com pressa e puxou o celular.
— O que você tá fazendo agora, homem?
— Preciso ligar para a minha mulher... — ele falou em tom conspiratório, semicerrando os olhos para a tela do aparelho, segurando o celular de cabeça para baixo e apertando o vidro com o polegar. — Preciso avisar que fui raptado por uma desconhecida perigosa.
O meu celular começou a vibrar em cima do criado-mudo.
Peguei o meu aparelho, olhei para o nome dele piscando na chamada e atendi, colocando no viva-voz bem na cara dele:
— Alô?
O Rocco aproximou o microfone da boca e começou a sussurrar no telefone com a voz mais dramática do planeta:
— Sky? Amor? Escuta bem... eu fui sequestrado por uma mulher maluca na minha própria casa. Ela me obrigou a tomar água sem gosto, tentou me agarrar e quase me impediu de usar o vaso moderno. Não paga o resgate! Eu tô resistindo com bravura! Mas eu te amo, tá? O Big Black é todinho seu...
Fiquei encarando o homem sentado a vinte centímetros de mim falando no celular.
— Rocco, eu tô sentada na sua frente.
Ele afastou o telefone do ouvido, olhou para a tela escura, franziu a testa e resmungou:
— A ligação caiu. A cobertura de sinal desse prédio tá uma porcaria.
Antes que eu pudesse tomar o telefone da mão dele, o homem abriu os dois braços no meio do quarto, jogou a cabeça para trás e começou a berrar a plenos pulmões, cantando desafinado feito uma britadeira:
— COMO É GRANDE O MEU AMOR POR VOCÊÊÊÊ!
— CALA A BOCA, ROCCO! — me joguei em cima dele, tampando a boca dele com as duas mãos em desespero. — São quase dez da noite! Vão chamar a polícia e o síndico vai multar a sua cobertura!
Ele tentou continuar cantando através dos meus dedos, soltando resmungos abafados:
— Humm humm Sky... você é meu anjo... humm...
— Deita logo nessa cama, pelo amor de tudo o que é mais sagrado!
Empurrei os ombros dele para trás até ele finalmente desabar no travesseiro. Subi o edredom grosso por cima das pernas compridas dele e respirei fundo, limpando o suor da minha testa.
Quando fui me afastar, a mão pesada do Rocco subiu com lentidão e envolveu o meu pulso com um aperto firme e quente.
Parei.
Olhei para ele.
Os olhos escuros dele estavam pesados de sono e de álcool, mas aquela loucura toda tinha sumido. Não havia empresário temido, arrogância de bilionário ou qualquer resquício de controle.
Era apenas o meu Rocco.
— Minha Sky... — ele sussurrou com a voz rouca.
O meu coração deu aquela derretida profunda e dolorosa no meio do peito.
— Oi, grandão...
— Você veio me buscar.
— Claro que vim, seu bobo.
Ele abriu um sorriso pequeno e doce, com os lábios entreabertos.
— Eu sabia...
— Sabia o quê?
— Que você viria... você nunca me deixa sozinho.
Ele fechou os olhos devagar, ainda segurando o meu pulso, até os dedos dele relaxarem aos poucos sobre a minha pele.
Aquilo me desmontou por inteira.
Passei meses sendo a mulher desgovernada que bebia demais nas baladas, fazia escândalo e acabava precisando ser carregada no colo por ele. Agora, vendo aquele brutamontes dormindo tão vulnerável, esperando por mim no meio do caos mental dele, uma onda gigante de ternura tomou conta de mim.
Sentei na beirada da cama, olhando para o rosto dele.
— Eu amo esse idiota... — sussurrei para o silêncio do quarto.
Aproximei o meu rosto com carinho e passei a mão pelos cabelos escuros e bagunçados da testa dele.
— Eu tô aqui, meu amor — murmurei bem baixinho, me inclinando para dar um beijo na bochecha dele. — Agora descansa que eu cuido de...
O estômago do Rocco fez um barulho cavernoso.
Parei no meio do movimento.
Ele arregalou os olhos no susto.
Eu pisquei.
Ele levou a mão à garganta.
— Rocco?
Ele sentou de supetão na cama.
— Espera...
— O que foi?!
— Eu acho que...
— Rocco?!
— Eu acho que eu vou...
E então:
BLÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉ!
Um jato de vômito quente com cheiro de uísque barato e água bateu em cheio no meio da minha blusa de seda e no meu colo.
Silêncio mortal.
Absoluto.
Completo.
Olhei para a minha blusa de seda novinha.
Olhei para o meu colo encharcado.
Olhei para a cara do Rocco.
Olhei para o teto do quarto.

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