POV: SKY BITTENCOURT
Passei o dia seguinte inteiro confinada naquele quarto, contando as gotas do soro e desejando que um meteoro atingisse o hospital para me poupar de voltar à Blackwood. A enfermeira não deixou a Moon entrar com meu notebook e me proibiu o uso de telas, como se eu fosse uma criança. Droga. Eu precisava produzir, precisava de movimento.
Dizem que quando você vive em uma rotina frenética, o seu organismo aprende a funcionar sob pressão, como uma máquina que não pode esfriar. Mas, no momento em que você é forçada a parar, o corpo entra em um estado de dormência estranho. Parece que as engrenagens travam. Eu estava exausta, mas era um cansaço de não fazer nada, uma fadiga mental de ficar olhando para o vazio enquanto o mundo lá fora continuava girando e me deixando para trás.
Moon dormiu em casa para ficar com nosso pai, já que não podíamos pagar outra diária para a enfermeira particular. Ela aproveitou para resolver as pendências do antigo estágio e os projetos da faculdade; agora o nosso foco total seria esse novo projeto e o salário que viria dele.
Meu único passatempo foi a leitura. Li O Morro dos Ventos Uivantes e tenho que admitir: que história interessante, mas complexa e confusa. Fiquei pensando que metade daqueles problemas seriam resolvidos se as pessoas não fossem tão orgulhosas. Li também A Revolução dos Bichos, do George Orwell, e agora toda vez que eu olhar para um porco vou ficar me perguntando se ele está planejando um golpe de Estado ou se só quer comida.
Para fechar a maratona, li O Lado Feio do Amor, da Colleen Hoover. Que coisa impactante. É bizarro pensar que, para ter o lado bonito, você precisa obrigatoriamente encarar o lado feio. Olhei para as paredes brancas do quarto e me perguntei quando o meu "lado bonito" finalmente chegaria, porque o feio já estava morando comigo e cobrando aluguel há tempo demais.
No terceiro dia, eu já queria me matar. Não aguentava mais ficar parada. Quando fazemos muitas coisas ao mesmo tempo, o silêncio não é um descanso; o silêncio é um lembrete de tudo o que está dando errado e que você não pode consertar enquanto estiver presa a um suporte de soro. Minhas vitaminas continuavam baixas e minha pressão teimava em não abaixar, mas eu não podia mais ficar ali. Eu tinha uma reunião, tinha uma vida para salvar e um orgulho para engolir.
O som da porta abrindo me sobressaltou, dispersando-me dos meus pensamentos. Não era a enfermeira, nem minha irmã. Era o Gael.
— Como você está? Fiquei assustado ontem — ele disse, aproximando-se com um olhar genuíno.
— Melhorando... — agradeci, sentindo um conforto momentâneo. Ele era bonito, gentil e parecia ser o único ponto normal naquele hospício. — De que empresa você é mesmo, Gael?
— Da Lacerda.
Meu coração não apenas apertou; ele parou e despencou. Lacerda. A empresa que destruiu meu pai. A primeira a processar nossa família e a roubar o projeto que era o legado dele. O ódio subiu tão rápido que quase me engasguei com a própria saliva. Eu não podia culpar o Gael, ele era só um funcionário, mas o nome daquela firma era uma maldição para mim. Se ele trabalhasse para o diabo, eu teria sorrido mais.
Conversamos pouco, minha voz saindo mecânica até ele se despedir. Quando Moon chegou mais tarde, trazendo minhas coisas e a notícia de que sua saída da antiga empresa fora tranquila, desabafei sobre o Gael.
— Ele é da Lacerda, Moon. Acredita? O universo não me dá um refresco, ele me dá um soco inglês.
— Dorme mais um pouco, Sky. Vou tentar colher as informações da reunião de hoje e no fim do expediente eu volto.
Eu queria sair dali, mas os médicos foram irredutíveis. Fiquei sozinha, remoendo o ódio acumulado pela Lacerda, até que a porta abriu novamente.
— Como você está? — A voz era carregada de uma preocupação que eu reconheceria no inferno. Era o Victor.
— O que você quer? — Rosnei, sentindo o sangue ferver.
— Nada, só vim saber se você está bem. Afinal, éramos melhores amigos.
Rocco deu um passo à frente. Tentei me levantar sozinha, mas minhas forças tinham evaporado junto com a minha dignidade. Quando ele estendeu a mão, eu recuei por puro instinto de vergonha.
— Você também não! Não encosta em mim!
Ele não deu a mínima para o meu protesto de garota surtada. Com uma força que me deixou muda, Rocco me ergueu do chão como se eu fosse feita de papel e me colocou de volta na cama com uma facilidade irritante. Ele olhou para o Victor e apenas apontou para a saída. O recado foi silencioso e absoluto. Victor sumiu do quarto em segundos, provavelmente deixando um rastro de medo pelo corredor.
Agradeci baixinho, sem coragem de olhar nos olhos dele, mas Rocco estava focado no meu braço. Na confusão da minha "terapia de arremesso de bandeja", eu tinha arrancado o acesso do soro. O sangue escorria rápido, manchando o lençol branco e respingando na mão impecável dele.
— Ótimo... — sussurrei, sentindo a derrota final. — Já sujei você com tinta, com vômito e agora com sangue. Você deve me odiar.
— Cala a boca, Sky — ele disse, pressionando o curativo com firmeza, sem parecer se importar com o sangue. — Você tem uma personalidade terrível. Eu achava que você era só maluca, mas agora eu tenho certeza que, além de doida, é psicopata.
Olhei para ele com a cara mais feia que consegui fazer, mas ele me encarou com uma expressão ainda mais dura, me obrigando a desviar o olhar. Ele era o tipo de homem que vencia até em um concurso de encarada no meio de um hospital.
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Concordam com o Rocco??

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