POV: SKY BITTENCOURT
— Isso também não é da sua conta — respondi, forçando um sorriso cínico que mal mascarava o tremor nas minhas mãos.
Rocco não recuou. Pelo contrário, ele se inclinou ainda mais na minha direção, invadindo meu espaço pessoal com uma naturalidade que me deixava sem ar. O espaço entre nós diminuiu até que eu pudesse sentir o calor emanando do seu corpo e o cheiro do seu perfume caro — amadeirado, intenso — misturado ao toque seco do whisky. Aquele sorrisinho arrogante, que parecia permanentemente esculpido em seus lábios, brincava com a minha sanidade. Era perigoso, magnético e irritantemente consciente do efeito que causava.
— Por que tanta agressividade, Bittencourt? — ele sussurrou, a voz grave vibrando contra a minha pele, transformando a provocação em brasas que queimavam meus ouvidos. — Está querendo pagar alguém para te foder de novo ou só está de mau humor porque suas doses de tequila acabaram por hoje?
Senti meu rosto ferver. O sangue subiu às bochechas em uma mistura explosiva de ódio e uma vergonha que eu odiava sentir. A audácia dele era monumental, uma muralha de prepotência que eu não sabia como escalar.
— Vai se ferrar, Rocco! — sibilei, a voz saindo mais baixa do que eu pretendia, presa entre o desejo de desaparecer e a vontade absurda de avançar contra ele.
O garçom, alheio à guerra silenciosa que travávamos, serviu a água com gás e limão que Rocco havia ordenado minutos antes. Peguei o copo como se fosse uma arma e virei o líquido de uma vez. As bolhas geladas explodiram na minha garganta, um choque térmico que serviu apenas para me lembrar de que eu ainda estava viva e cercada por predadores.
— Satisfeito? Agora pode ir, patrãozinho. O dever te chama em outro lugar, e eu já tive minha cota de supervisão por uma noite — falei, batendo o copo vazio no balcão com força suficiente para fazer o vidro estalar.
Era irritante como todos naquele lugar pareciam ter um roteiro pronto para a minha vida. Queriam ditar meus passos, controlar meus batimentos cardíacos e decidir o que eu devia ou não sentir. Eu só queria, por uma única e mísera noite, deixar de ser a "coitadinha" traída, a "maluca do vômito" ou a "funcionária problemática" que precisava de babá. Eu queria ser apenas Sky.
Antes que o Rocco pudesse retrucar minha última patada e eu sabia que ele tinha algo ácido na ponta da língua, Sofia surgiu do nada. Ela o agarrou pelo braço com uma familiaridade que me causou um desconforto que eu me recusei a analisar, sussurrando algo sobre um detalhe urgente da boate. Rocco me lançou um último olhar uma mistura de aviso e algo que eu não soube decifrar antes de ser arrastado para longe.
Fiquei ali, plantada no balcão, abraçada ao meu copo vazio. O som da música parecia ter ficado mais alto, uma batida eletrônica que martelava minhas têmporas. Foi então que Victor se aproximou. Novamente.
Ele usava aquela voz mansa, o tom de "melhor amigo" que ele aperfeiçoou durante anos para me manter sob seu controle. O olhar de arrependimento parecia tão genuíno que, para qualquer um que não conhecesse seu histórico de traição com a minha prima, ele seria o herói injustiçado da história.
— Sky, a gente não precisa ser inimigo — ele começou, tentando sustentar um contato visual que eu tentei quebrar a todo custo. — Sinto muito pelo jeito que conversamos. Deixa eu te pagar uma última bebida como um pedido de trégua?
Olhei ao redor. Sem sinal do Rocco. Sem sinal da Sofia. Passei na mesa uma última vez apenas para pegar minha bolsa e me despedir do resto do grupo. Nathan ainda brincou que eu tinha sido uma "boa garota" por não ter quebrado nada ou vomitado no carpete caro da Blackwood. Forcei um riso que soou falso até para os meus ouvidos e caminhei em direção à saída.
Mas, no meio do corredor que levava ao saguão, o chão pareceu sumir.
A primeira coisa que notei foi a luz. As luzes da boate, antes nítidas, começaram a se misturar em manchas coloridas e bagunçadas, como se alguém estivesse borrando uma pintura a óleo fresca diante dos meus olhos. Meu coração disparou em um ritmo frenético, martelando contra minhas costelas com uma força que me deixou sem ar.
Os rostos das pessoas ao meu redor começaram a se deformar, esticando-se e derretendo. Era como se eu estivesse olhando o mundo através de um vidro quebrado, onde cada estilhaço refletia uma realidade distorcida. A náusea voltou, mas desta vez o gosto era diferente. Não era o estômago reclamando do hospital; era algo metálico, tóxico, que subia pela minha garganta e nublava minha mente.
Minha mente estava se apagando, desconectando-se dos meus sentidos um por um. Eu sentia meu corpo teimoso tentando dar o próximo passo rumo à saída, rumo à liberdade, mas as pernas não respondiam mais. Eu estava afundando em um abismo escuro no meio de uma festa lotada, e ninguém parecia notar.
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