POV: ROCCO BLACKWOOD
Voltei para casa depois da sessão com a Eleonora e, embora meu corpo devesse estar relaxado, minha mente parecia um canteiro de obras em dia de vistoria técnica. Dormi pouco, assombrado por vultos ruivos e cheiro de morango que eu não conseguia silenciar. No sábado, a reunião de alinhamento com as equipes foi um teste para a minha paciência. Cheguei na sala e vi a Sky — ou melhor, a Bittencourt — escorada no chão, tateando o carpete como se estivesse procurando o sentido da vida.
— Deixou alguma moeda cair no chão? — perguntei, cruzando os braços e tentando manter o tom sarcástico para ver se ela reagia.
Ela murmurou que sim, levantou-se com aquela dignidade ferida que só ela consegue sustentar e se retirou. Eu já tinha avisado o Nathan sobre a confraternização na Ambrosia à noite; sabia que ele precisava de um motivo para não explodir antes do almoço de domingo. A Sky não queria ir, mas eu insisti. Afinal, eu mudei a porra do DJ, a iluminação e a atração principal por causa dela; o mínimo que ela podia fazer era comparecer ao próprio resgate social que eu arquitetei.
Já no clube, eu me sentia um segurança de creche de luxo. Ela bebia e eu vigiava. Ela respirava e eu censurava. Estávamos brigando o tempo todo por causa do copo na mão dela, e eu parecia um irmão mais velho paranoico ou um pai zeloso demais. O Diego até brincou comigo, rindo da minha cara de poucos amigos enquanto eu acompanhava cada passo dela pelo salão.
— Relaxa, Rocco. Deixa a menina se divertir um pouco — Diego disse, encostado no bar.
— Ela acabou de sair do hospital, Diego. Organizei isso aqui para o pessoal se integrar, não para ela se autodestruir em rede nacional — respondi, tentando justificar o injustificável.
— Ela tem cara de quem carrega problemas que a gente nem imagina — Diego ponderou, o olhar ficando sério. — Não dá para julgar o que passa na cabeça dela, mas dá para ver que o peso é grande.
Aproveitei para perguntar sobre o relatório que pedi. Ele me disse que estava quase pronto, mas que os advogados no Brasil encontraram alguns processos antigos e estavam checando tudo para me dar o dossiê completo. Eu precisava saber quem era aquela mulher antes que o mistério dela me deixasse completamente maluco.
A festa seguia, mas o clima azedou quando um idiota bateu em uma das meninas no escritório. Resolvi aquilo com a agressividade necessária, expulsando o sujeito sob ameaça de processo, mas quando voltei para o salão, meu estômago deu um nó que nenhuma auditoria explicaria: a Sky estava dançando com o Gael. Senti um desconforto ardido no peito. Ciúme de uma garota que me odeia, que me vomitou e que eu mal conheço? Que grande merda.
Então, a vi conversando com o Victor. Aquele rato de novo. Fui até lá, perguntei o que ela tinha com ele, ordenei que parasse de beber e entreguei a famosa água com gás. A Sofia, uma das arquitetas, chegou para elogiar o projeto da boate — que, modéstia à parte, fui eu quem desenhei — e tentou me prender em uma conversa técnica enfadonha.
Vi a Sky se afastando para ir embora, mas a Sofia segurou meu braço. Tentei ser educado, respondi que não tinha "preferidas" no concurso, mas meu radar apitou quando vi o Victor pegando a Sky e levando-a para os quartos dos fundos. Ela não parecia bem; estava com a mão na cabeça, cambaleando, o corpo todo mole.
"Não é problema meu", pensei. Mentira. Dois segundos depois eu estava andando de um lado para o outro na porta do quarto como um idiota, enquanto a Sofia me olhava do corredor sem entender por que o CEO da empresa estava tendo um colapso nervoso na frente de uma suíte.
Ouvi gemidos e gritos abafados. Arrombei a porta pronto para matar alguém, mas o Victor gritou que era noivo dela.
— Noivo? — eu quase ri de nervoso. — Você estava engolindo a cabeça de outra mulher lá fora agora mesmo!

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