POV: ROCCO BLACKWOOD
Parei no corredor, encostando a testa na madeira fria da porta por um segundo. Meu coração ainda martelava contra as costelas, e não era apenas pelo esforço de não morrer sufocado pelo "aroma" da Bittencourt. O jeito que ela fechou os olhos... a entrega momentânea antes do desastre químico... aquilo foi perigoso. Mais perigoso do que qualquer auditoria fiscal.
Fui até o armário de limpeza, peguei o álcool em gel mais potente que encontrei e uma escova de dentes lacrada no armário de hóspedes. Voltei e bati na porta.
— O kit de descontaminação está aqui fora, Bittencourt. Não ouse sair desse quarto até que sua boca seja considerada zona segura pela vigilância sanitária.
Ouvi um resmungo indignado lá de dentro, seguido pelo som dela pegando as coisas.
Enquanto ela se "exorcizava" no banheiro, fui para a cozinha preparar um café que fosse forte o suficiente para ressuscitar um morto — ou ao menos estabilizar a Sky. Eu tinha um compromisso em poucas horas e, por algum motivo que minha lógica ainda não conseguia explicar, eu não queria ir sozinho.
Vinte minutos depois, ela apareceu na cozinha. Usava a minha camiseta cinza, mas agora os cabelos ruivos estavam penteados e o rosto lavado. Ela parecia... humana. E, felizmente, o cheiro de meia tinha sido substituído por menta glacial.
— Melhor? — perguntei, estendendo uma caneca de café preto para ela.
— Não fale comigo até eu terminar isso — ela rebateu, pegando a caneca como se fosse um cálice sagrado.
Esperei que ela desse o primeiro gole antes de lançar a isca.
Apoiei-me no balcão, observando-a dar o primeiro gole no café. Um nó subiu pela minha garganta enquanto eu a via baixar a guarda por um segundo. Esperei a cafeína fazer efeito antes de lançar a isca.
— Já que somos amigos agora... por que você não começa me contando o que você tem com aquele tal de Victor? — perguntei, mantendo o tom casual, mas sentindo um arrepio subir pelas minhas costas em alerta.
O silêncio foi barulhento. Ela desviou o olhar e soltou a história: um namoro de anos e uma traição com a própria prima, Sofia — a engenheira que estava se jogando para cima de mim na boate.
— Eu trabalhava na Gouveia quando me inscrevi para o concurso, mas não fui eu quem cadastrou o grupo. Eu já tinha aberto a Zênite com minha irmã e ela nos inscreveu por fora. Quando fui demitida por causa daquela confusão, eles roubaram o meu projeto original. Tive que refazer tudo do zero para o concurso. Foi um inferno, tive dificuldades, mas consegui com ajuda de um "sei lá"...
Encarei-a em silêncio. Senti uma vontade súbita de sorrir em admiração, mas segurei o riso. Ela abriu uma empresa do zero, teve o projeto roubado, refez tudo sozinha em tempo recorde e ainda ficou no top 4 entre os melhores? Impressionante. Ela é um trator de resiliência. Mas eu não diria isso em voz alta. Nunca.
— Bom — limpei a garganta, tentando dissipar a tensão. — Isso explica o surto na Erotics Boy, as bebedeiras e o vômito.
— Não... o vômito, em parte, foi por sua causa — ela confessou, o rosto ganhando um tom rosado de embaraço. — Eu já estava nervosa, tinha acabado de receber uma notícia péssima que não quero comentar... e então teve aquela revelação de que o gigolô abusador de defunto, capitalista do sexo, não era só um abusador qualquer, mas o CEO e o meu chefe. Eu te confundi com um g***** e levei um susto enorme. O choque de realidade misturado com o nervosismo e o monte de líquidos que tomei me deu um nó no estômago. Fiquei morta de vergonha.
— Acho que não ficou tanto assim, já que você sabe, né... — afirmei, arqueando a sobrancelha de forma divertida.
— Ah! Cala a boca! — disparou, ríspida, mas vi um brilho de desafio nos olhos dela. — Como vai ser na empresa? Continuará sendo meu chefe insuportável?
— Sim, continuarei sendo o seu chefe, Bittencourt. Na verdade, sou o chefe do seu chefe, e do chefe dele também — retruquei, sentindo um prazer quase infantil em lembrá-la da distância abissal entre nossas posições na cadeia alimentar da Blackwood C.O. — Mas não se preocupe, eu não sou insuportável. Pelo menos nunca vomitei em ninguém, nem fiquei bêbado querendo beijar ou... — ela me olhava com uma cara tão feia que decidi que minha integridade física valia mais que a piada. — Parei... parei por hoje.
Mudei o tom, deixando a voz mais profissional para que ela entendesse que o jogo ali era sério.

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