POV: ROCCO BLACKWOOD
Bati a porta do apartamento dela e fiquei parado no corredor por alguns segundos, sentindo o rosto arder e o gosto de morango e fúria ainda impregnado nos meus lábios. O beijo dela foi muito melhor do que eu imaginei. Na verdade, foi um desastre para o meu autocontrole. Encostei a testa na parede fria e dei duas cabeçadas leves, tentando colocar o cérebro no lugar.
— O senhor está bem? — Um vizinho passou com um saco de lixo, me olhando como se eu fosse um fugitivo do hospício.
— Ótimo — respondi seco, ajeitando o paletó. — Nunca estive melhor.
Entrei no carro e encarei o prédio simples onde ela morava. Aquela mulher ia me enlouquecer. Dirigi para casa no automático e, assim que pisei no meu loft, o celular tocou. Minha avó.
— Rocco, querido. Fiquei sabendo das novidades na empresa... esse escândalo de plágio...
— Vovó, por favor, não me estressa agora. Já resolvi metade daquela merda.
— Eu só quero que você se esforce, Rocco. Faça o melhor. Dê ao seu pai o orgulho que ele merece, onde quer que ele esteja. Ele sempre foi tão impecável em tudo o que fazia...
Desliguei a chamada minutos depois, sentindo o peso de sempre. Eu amava meu pai, amava meus avós, mas ser comparado a um fantasma perfeito o tempo todo era exaustivo. Eu nunca era o Rocco; eu era sempre "o filho do grande Blackwood". Por um lado, minha avó era menos invasiva que meu avô.
Nathan me mandou uma mensagem logo em seguida: "A última verificação do local da construção é amanhã". Natal exigia minha presença imediata. Ótimo. Distância era exatamente o que eu precisava.
No avião, a caminho de Natal, o Wi-Fi da primeira classe era a minha maldição. Abri a conversa com a Sky.
Digitei: VOCE SE ACALMOU? — Apaguei.
Digitei: SOBRE O BEIJO... — Apaguei de novo.
Digitei: AINDA SOMOS AMIGOS? — Apaguei.
Droga. Joguei o celular no assento ao lado. Desde quando eu tinha medo de enviar uma porra de uma mensagem? Eu sou Rocco Blackwood, eu não hesito. Mas ali, a 30 mil pés de altura, eu me sentia um covarde.
A aeromoça, uma loira de sorriso ensaiado, estava me dando moral desde o embarque. Ela passou a mão "sem querer" no meu ombro enquanto servia o uísque. Eu estava com raiva, estava frustrado e precisava tirar o gosto de Sky da minha boca.
Não resisti. Levei a mulher para o banheiro apertado do avião. A fodi ali mesmo. Foi rápido, mecânico, desprovido de qualquer sentimento. Quando terminei, olhei para o espelho minúsculo e me senti um lixo. Um lixo completo. Meu corpo tinha funcionado, mas minha mente estava em Porto Alegre.
— Qual seu nome mesmo? — ela perguntou, enquanto retocava o batom e me entregava um papel com o número dela. — A gente podia se ver em Natal...
— Nathan — respondi, o primeiro nome que veio à cabeça. — Meu nome é Nathan. O cara mais mulherengo e cafajeste que eu conheço.
Pobre Nathan, ia ganhar uma fama internacional sem nem saber. Saí dali decidido a nunca mais viajar com essa companhia aérea só para não ter que olhar para a cara dela de novo.
Passei dois dias em Natal sob um sol escaldante, resolvendo problemas de nivelamento de terreno e burocracia ambiental. Eu estava exausto, estressado e, em cada intervalo, eu entrava na rede social dela. Nada. Nenhuma postagem. Aquela mulher era um fantasma digital.

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