POV: SKY BITTENCOURT
Abaixei a folha do contrato e respirei fundo, encarando o teto do meu quarto. Eu precisava ser estratégica. Olhei mais uma vez para a cláusula de Beijos e Afeto e o "X" violento que lasquei no Não Consentido.
Nem pensar. Talvez se aquele homem misterioso me beijasse, eu finalmente tiraria o Rocco Arrogante Blackwood da minha cabeça. Mas... por que diabos o nome do Rocco e a palavra "apaixonar" estavam na mesma linha de pensamento dentro do meu cérebro?
Bati a cabeça na parede algumas vezes para ver se os meus neurônios voltavam para o lugar.
A minha meta de vida era clara: eu ia perder a minha virgindade com alguém que gostasse de verdade, e não com um "sei lá como eu poderia chamar" o dono do quarto Tártaro. O Gael era a opção perfeita. Talvez se eu insistisse, acabaria me apaixonando por ele, porque ele realmente me via. Eu não cometeria o mesmo erro do passado; o Vitor me traiu porque nós não transamos, então eu ia transar. O Gael era fofo, gentil e seguro.
Mas como é que eu ia transar com o Gael se eu nem sabia o que eu gostava? Minha vida inteira tinha sido tão cansativa, cuidando do meu pai, trabalhando feito uma condenada, correndo atrás de estágio, limpando casa... Eu nunca tive tempo e nem energia para me tocar, me explorar ou descobrir o que realmente me dava tesão. Eu era uma folha em branco.
Então, usei a lógica: eu ia usar esse Dom do Ambrosia como um "professor de sensações". Ele ia me ensinar a ter um orgasmo, ia acordar o meu corpo, eu ia ganhar uma grana preta e, quando eu estivesse pronta, o Gael receberia o prêmio final. Um plano perfeito, sem falhas.
Olhei para os valores no final do documento. Se houvesse sexo real envolvido, o contrato subia para cem mil reais.
— Não, obrigada. Prefiro a versão econômica — resmunguei para mim mesma.
A versão sem sexo, apenas com exploração de sentidos, pagava cinco mil reais por sessão. Como seriam duas sessões por semana, o pacote fechava em dez mil por mês. Num contrato de seis meses, eu garantiria sessenta mil reais! Isso mudaria completamente a minha vida.
Mas o contrato vinha com garras. As regras de exclusividade do Nível Zero eram quase ditatoriais: eu não poderia ter outro Dom, não poderia me exibir para ninguém e qualquer alteração ou decisão sobre o meu próprio corpo — tipo cortar o cabelo ou fazer uma tatuagem — eu teria que consultar ele primeiro, como se o cara fosse meu dono.
Tinha uma cláusula confusa sobre "Relacionamentos Externos". A pergunta era se eu queria dedicação exclusiva ao clube ou se manteria minha vida amorosa fora dali. Marquei com um "X" bem grande que a minha vida fora do clube continuaria ativa. Eu não ia deixar o Batman ditar com quem eu saía no mundo real.
Com o papel todo rasurado e preenchido, enfiei tudo no envelope pardo. Era hora de voltar ao Ambrosia e entregar a minha alma em formato de P*F para a Eleonora.
O final de semana passou e eu nem vi. A enfermeira do meu pai tirou folga, então tive que fazer absolutamente tudo em casa. Enquanto isso, a Moon e a Sakura viraram melhores amigas de infância, saindo juntas no sábado e no domingo, me deixando sozinha na função de cuidadora.
Na segunda-feira trabalhei feito uma louca. No horário de almoço de quarta-feira, assinei os papéis necessários e resolvi passar correndo no Ambrosia para deixar o envelope, antes de ir para a última verificação da praça na orla do Guaíba. A nossa grande inauguração da revitalização seria dali a uma semana. E no outro fim de semana seguinte, teríamos a tão temida viagem para Natal, no Rio Grande do Norte. O objetivo da viagem era vistoriar o terreno e as instalações onde seria construído o novo resort de luxo da holding, sabendo que, após essa vistoria técnica, uma das quatro equipes seria oficialmente desclassificada e cortada do projeto.
A pressão estava no nível estratosférico. Felizmente, na nossa apresentação interna de relatório, a nossa equipe deu um show e conseguimos uma nota excelente, o que me deu um fôlego para respirar.
O Rocco tinha sumido da sala dele na empresa. Eu cacei o infeliz pelos corredores disposta a armar um barraco por causa daquela palhaçada da advertência por escrito do Gael, mas não o achei em lugar nenhum. Depois que saí da empresa, peguei um táxi para ir ao Ambrosia deixar o meu contrato. Para melhorar o meu humor, teve um acidente na avenida e ainda por cima era dia de jogo do Grêmio; peguei um trânsito infernal e fiquei mais de uma hora mofando no banco de trás esperando para conseguir chegar à boate.
E adivinha onde o infeliz do meu chefe estava enquanto eu quase enfartava no trânsito?
Sentado confortavelmente em uma das poltronas VIP do bar do clube, com um copo de uísque na mão, assistindo de camarote a uma apresentação de dançarinas seminuas. Lindo, impecável e com aquela cara entediada de quem era o dono do mundo.
Quando passei em direção ao balcão da Eleonora, o Rocco virou o rosto e seus olhos verdes cruzaram com os meus. O desgraçado soltou um risinho de canto. Se os meus olhos fossem dois fuzis, ele teria virado uma peneira ali mesmo.
Entreguei o envelope para a Eleonora às pressas.
— Aqui está, Eleonora. Tudo preenchido. Agora eu preciso correr, estou atrasadíssima — falei, checando o relógio e saindo antes que ele viesse me amolar.

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