POV/ ROCCO
— Então... o que é isso aí entre vocês, hein, Senhor Blackwood? — a Sakura perguntou no banco de trás, com um tom semicerrado.
— Nada, ué. Não tem nada para ver. Ela é um pouco louca, apenas isso — afirmei, mantendo os olhos no retrovisor.
— Sei... — ela disse, sorrindo maliciosamente.
— E você, Sakura? Eu vi o show que você deu no pátio com o Nathan. O que houve ali?
Ela soltou um suspiro pesado antes de desabafar.
— O Nathan veio falar merda para mim. Disse que o meu namorado atual não é uma boa pessoa, que não é um cara legal e que só quer se aproveitar de mim. Dá para acreditar?
— Olha, eu conheço homem — comentei, mantendo a voz firme e o olhar fixo no trânsito. — Talvez ele, tenha uma certa... razão.
Sakura soltou uma risada amarga, totalmente sarcástica, olhando para a janela lateral.
— Atá...... — ela revirou os olhos para mim — Mas é engraçado ouvir isso dele, não é? Logo o Nathan querendo falar que alguém quer se aproveitar de mim. É ridículo vindo dele, que foi a pessoa que tirou tudo o que eu tinha.
Respirei fundo, passei a mão pelo cabelo e olhei para ela pelo retrovisor interno.
— Não é bem dessa forma, Sakura. E você sabe bem disso.
Ela bufou e encostou as costas no banco do carro, cruzando os braços com força.
— Eu não estou te pedindo para entender as atitudes dele, só estou tentando te explicar que as coisas não são como você imagina. Toda verdade tem um outro lado. O Nathan tem traumas profundos por causa do histórico familiar dele.
— O qual ele demonstra muito mal, né? Um mulherengo cafajeste que não leva nada a sério.
— Esse jeito cafajeste que ele tem, de pegar e não se apegar a ninguém, é um mecanismo de defesa. É difícil para ele. As pessoas que ele mais amava no mundo, com quem ele era realmente apegado, morreram. Se algo acontecesse com você... — virei-me no banco para encará-la diretamente. — O Nathan, seu irmão Diego, eu... todos nós sofreríamos.
— É, pode até ser. Mas não muda o fato de que ele me abandonou.
A Sakura silenciou no banco de trás, olhando para o vidro lateral.
Pouco depois, a porta do passageiro se abriu e a Bittencourt voltou para o carro. Ela já estava usando o vestido preto soltinho com a jaqueta por cima, e a combinação realçava o contraste absurdo dos cabelos ruivos e das pernas claras.
— Agora está bem melhor, não é? — comentei, medindo-a com o olhar pelo canto do olho enquanto ela se acomodava.
Ela me ignorou solenemente, com o queixo erguido. Puxou o cinto de segurança com uma força desnecessária e travou o fecho com um estalo alto, sem me dar o luxo de uma única palavra de resposta. Olhei pelo retrovisor e vi a Sakura segurando o riso no banco de trás, achando graça do gelo que eu estava levando.
Dei a partida e seguimos o trajeto. Chegamos ao local da orla do Guaíba bem mais cedo do que todo mundo. Como presidente da Blackwood C.O., se houvesse qualquer detalhe técnico ou erro de cálculo para organizar na estrutura antes do evento oficial, eu precisava arrumar para não passar vergonha diante da imprensa. Assim que estacionei na guia, a Sakura abriu a porta e saiu do carro estrategicamente, nos deixando a sós. A Sky fez menção de puxar a maçaneta para descer também, mas fui mais rápido: estendi a minha mão e segurei o braço dela com firmeza.
— Precisamos conversar, Bittencourt.
Ela tentou puxar o braço de volta, com os olhos castanhos faiscando de puro ódio.
— Não tenho nada para conversar com você, Blackwood! E se for por causa do que eu falei de você na sorveteria, pode me despedir agora mesmo, eu não estou nem aí! Pode assinar a minha demissão!

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