No meio do desespero, ele teve sangue-frio para mandá-la se esconder no banheiro. E, enquanto ela ficou lá dentro, apavorada e sem saber o que estava acontecendo do lado de fora, ele a acalmou com paciência.
Antes de resgatá-la, sabendo muito bem que havia gente ali dentro prestes a incendiar a loja, ele se recusou a sair quando os policiais mandaram, afirmando que sua esposa estava lá e que ele não iria a lugar nenhum...
Ao se lembrar dessas cenas, Ema franziu a testa e balançou a cabeça.
Ela se recusava a admitir que aquilo a tivesse abalado por dentro. Aquilo só podia ser gratidão. Se fosse qualquer outra pessoa a salvá-la, ela sentiria a mesma coisa.
Não demorou muito para Alípio voltar. O latte gelado que ele havia pedido já estava sobre a mesa, servido pelo garçom.
Ao se sentar novamente, Alípio não disse uma palavra. Sua expressão carregava uma seriedade difícil de decifrar.
Ema percebeu que havia algo errado depois daquela ligação, mas não teve coragem de perguntar.
Mesmo sem fazer perguntas, sua postura já não era tão defensiva e hostil quanto antes. Em silêncio, ela empurrou a taça da sobremesa de amendoim para perto dele, sem lhe dar colher nem dizer nada.
Ainda assim, o próprio Alípio pegou uma colher e começou a comer, murmurando apenas um simples “obrigado”.
A mente de Ema estava um caos completo.
Além do fato de Alípio tê-la salvado, Ema se lembrou do que Marcos lhe dissera naquela manhã: se Diogo e os pais de Alípio descobrissem que os seus três filhos eram dele, fariam de tudo para tirá-los dela.
E a única pessoa com autoridade suficiente para bater de frente com essas pessoas era o próprio Alípio.
A intenção de Marcos tinha sido claríssima: era um aviso de que, se ela continuasse em guerra com Alípio, como conseguiria, no dia em que a verdade viesse à tona, enfrentar sozinha todo o poder e a influência da família Salazar?
Ao pensar nisso, uma tristeza imensa tomou conta do seu peito.
Não era como se ela nunca tivesse implorado nada a ele. Pensando no passado e imaginando uma futura disputa judicial pelas crianças, será que ele cederia? Será que convenceria a própria família a deixá-la em paz?
— Ema, no que você está pensando? Os doces não estão bons?

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