Ema assentiu. Afinal, o fato de ele estar largado no sofá do escritório não atrapalhava sua rotina.
— Está bem, Isabel, pode ir descansar também. Se ele só acordar de manhã, peça para a cozinheira preparar um prato a mais no café.
— Combinado. — Isabel confirmou antes de fechar a porta do quarto.
...
A madrugada avançava, envolvendo a casa inteira em um profundo silêncio.
Na cama, Ema revirava-se de um lado para o outro. Sem conseguir pegar no sono, sentou-se recostada aos travesseiros com um livro. Tinha acabado de virar a primeira página, mas sua mente vagava longe dali.
O som agudo de uma notificação quebrou o silêncio do quarto.
Com o cenho franzido, ela pegou o celular no criado-mudo. Era de Alípio:
"Ema, já dormiu? Estou morrendo de fome. Não coloco nada no estômago desde a noite de ontem. Muita, muita fome."
A irritação pinicou em sua pele, e ela digitou de forma prática:
"Lá embaixo, vire à esquerda. A última porta no fim do corredor é o quarto da cozinheira. Bata lá e peça para ela preparar um lanche."
Mas a réplica dele veio em segundos:
"Eu queria comer o macarrão de caldo que você faz. Aquele com tomate, ovo e verduras."
Ao ler aquelas palavras, Ema se lembrou de muitas coisas. Lembrou-se do dia em que Diogo Salazar comentou como Alípio elogiava aquele prato. Ele vivia dizendo que ela tinha o dom de pegar ingredientes banais e transformá-los na refeição mais saborosa do mundo.
Mas depois de um tempo, ele havia parado de comer tudo que ela cozinhava. Fazendo as contas, a recusa tinha começado exatamente na época em que as suspeitas infundadas de traição envenenaram a mente dele.
Recordar essa fase trouxe de volta um gosto amargo de injustiça. Magoada, ela travou a tela do aparelho sem se dar ao trabalho de responder.
Passaram-se alguns minutos até que o som de batidas ressoasse na porta do quarto. A voz grave e aveludada de Alípio vazou pela madeira:
— Ema, estou com fome. Quero seu macarrão.

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