Lívia esboçou um sorriso contido e se virou para encará-lo.
— Irmão, dizem que, quando duas pessoas conseguem continuar amigas depois que tudo acaba, é porque realmente seguiram em frente. Quem não consegue, no fundo, ainda está preso ao passado. Nem consegue olhar para a outra pessoa de novo.
Henrique avançou devagar até parar diante dela. Então curvou os lábios num sorriso frio, quase sarcástico.
— É isso, então? Me ver sofrendo te faz feliz?
Lívia parou no mesmo instante.
Ergueu os olhos para ele e, ao encontrar aquele olhar fundo, percebeu o vermelho contido ao redor dos seus olhos. Ficou sem reação. Engoliu em seco, tomada por uma culpa sufocante.
Henrique continuava com aquele sorriso que não chegava a ser sorriso. Havia na voz dele um cansaço exausto, quase devastado, como se estivesse se sustentando no último resto de força que ainda lhe sobrava. Mesmo assim, falou num tom estranhamente sereno:
— Eu te tratei mal em algum momento? Fiz alguma coisa contra você? Se fiz, me fala. Eu mudo. Mudo de verdade. Mas, por favor... Não põe ela na minha frente outra vez.
O peito de Lívia apertou de uma vez.
Vê-lo tão calmo, dizendo aquilo daquele jeito, doía mais do que qualquer explosão. O coração dela se retorceu, e seus olhos logo se encheram de lágrimas.
— Irmão, eu...
Henrique ergueu a mão e afagou de leve a cabeça dela. Mesmo com os olhos ainda avermelhados, tornou a sorrir.
— Lívia... Se você quiser me castigar, arruma outro jeito, tá? Mas não desse jeito. Não com ela... Tudo, menos isso. Pode ser?
Quanto mais calmo ele parecia, mais a dor se espalhava dentro dela. A faca estava cravada no peito dele, mas quem mal conseguia aguentar era ela. Com os olhos marejados, Lívia abaixou a cabeça, consumida pela culpa.
— Desculpa, irmão.
— E tem mais... Termina de dizer o que você não terminou antes.
— O quê? — Lívia fungou, com o nariz ardendo de tanto segurar o choro.
— Quem era aquela sua amiga com ficha criminal? E por que você ficou insinuando aquelas coisas sobre a minha profissão?
Lívia se assustou por um instante e ficou olhando para ele, hesitante.
De repente, lembrou-se do que Carolina tinha dito.
Ela não seria capaz de mudar o desfecho de nada. Então, de que adiantava contar? Só faria Henrique sofrer ainda mais, afundando outra vez naquele pântano de dor, lutando para não se perder de novo.
Se ele finalmente estava conseguindo tocar a própria vida, querendo formar uma família e viver em paz, e se a verdade não serviria para mudar coisa alguma, então revelá-la só multiplicaria o sofrimento dele.

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