Depois do almoço, Augusto voltou para o quarto para descansar um pouco.
Os mais velhos continuaram reunidos, conversando sem pressa, entre um assunto e outro, inteiramente à vontade.
Já os mais novos se espalharam pela mansão. Uns foram descansar, outros jogar videogame, tomar café, conversar, jogar xadrez... De um jeito ou de outro, todos passariam aqueles dois dias hospedados ali.
Qualquer trabalho ou assunto pessoal sem muita importância era deixado de lado.
Tudo para fazer companhia a Augusto e cumprir, ainda que só em parte, os deveres de filhos e netos.
Claro que havia também um segundo motivo para tamanho zelo: a coleção de antiguidades guardada no porão.
Entre as peças, havia relíquias de valor incalculável, tesouros tão raros que nem dinheiro bastava para comprá-los. Bastava tirar uma única peça dali para que seu valor já ultrapassasse centenas de milhões.
Até as duas filhas que haviam se casado e saído da família faziam questão de demonstrar mais zelo filial, pensando em garantir, no futuro, uma fatia maior da herança.
No fim da tarde, a luz dourada do entardecer se espalhava pelo jardim da mansão, tingindo de vermelho flores, árvores e arbustos. A brisa vinha carregada de perfume floral, deixando tudo ainda mais fresco e agradável.
Como Henrique estava com dificuldade para andar por causa da perna e tinha ficado no quarto lendo, Carolina, depois de passar tanto tempo trancada ali, começou a se sentir sufocada e saiu sozinha para caminhar pelo jardim.
Mal se aproximou do pequeno lago cercado por pedras ornamentais, deu de cara, para seu azar, com Elisa e Renata sentadas num banco de pedra, conversando.
Os olhares se cruzaram.
Àquela altura, sair dali de repente pareceria estranho demais.
Então Carolina apenas fez um leve aceno de cabeça.
— Boa tarde. Não quero incomodar.
Despediu-se e já ia se virar para sair, quando Elisa a chamou:
— Carol, venha aqui um instante.
Carolina parou no meio do passo. Respirou fundo, forçou um sorriso e tornou a se virar.
— O que foi, senhora Elisa?
— Seu pai foi preso, então você e o Rick não podem se casar, certo?
A pergunta foi direta demais. E grosseira demais.
Carolina manteve a expressão calma.
— Certo.
— Então pelo menos vocês podem ter filhos?
Antes que Carolina respondesse, Renata se meteu na conversa:
— Claro que não. Pensa bem: numa família como a nossa, uma criança nessas circunstâncias já nasceria marcada. E, no caso do Rick, a situação seria ainda pior. Ele trabalha num instituto aeroespacial, num ambiente rígido, onde qualquer escândalo pesa. Se ela engravidar antes do casamento, isso vira assunto, afeta a reputação dele e pode até atrapalhar a carreira.
— É tão sério assim? — Elisa fechou a cara. Ignorando completamente Carolina, virou-se para Renata e continuou cochichando com ela, como se a própria interessada não estivesse ali. — Então o Rick não pode nem ter um filho dele.
— Não é que não possa. Poder, pode. Mas, se tiver, isso vai afetar tanto a criança quanto o futuro do Rick. Fazer o quê? Ela tem um pai que foi preso. Ai... Uma pessoa comete um crime, e três gerações pagam o preço.
— Pois é. Por isso gente assim não devia se meter com crime.
— Exatamente. Acaba destruindo a própria vida e a dos outros.
Carolina percebeu que as duas estavam se divertindo com aquele veneno todo. Como não tinha a menor intenção de lhes dar atenção, simplesmente se virou para ir embora.
Mas Renata a chamou outra vez:
— Carol.
De costas para as duas, Carolina mordeu o lábio inferior, soltou o ar devagar e conteve a raiva antes de forçar outro sorriso. Então tornou a se virar.
— Tem mais alguma coisa?
— Você já pensou em simplesmente deixar o Rick em paz? Deixar que ele tenha uma vida normal, em vez de arruinar a vida dele por causa do seu amor egoísta?

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