A porta da varanda continuava aberta. Assim que as duas saíram, César se levantou de onde estava, ainda com a xícara de café na mão, e foi até a soleira. Encostou-se ali, tranquilo, com jeito de quem só admirava a paisagem, quando, na verdade, estava ouvindo a conversa delas.
Henrique sentiu a irritação subir na mesma hora. Observou-o por alguns instantes, até perder a paciência.
— Primo, dá um pouco de privacidade às moças.
O recado era claro: César precisava parar de bisbilhotar.
Os outros olharam para ele, incrédulos. Aquilo era baixo até para ele.
Mas César não demonstrou o menor constrangimento. Com um meio sorriso, foi até Henrique, parou diante dele e se inclinou de leve, aproximando a boca do seu ouvido.
— Rick... Você é mesmo lamentável. Precisou da sua irmã mentindo para conseguir trazer a sua namorada de volta.
O rosto de Henrique mudou na hora, e sua voz saiu fria:
— O que você quer dizer com isso?
— Sua irmã está lá fora, agora mesmo, pedindo desculpas à Carolina. No fim, foi ela quem mentiu, dizendo que você tinha ficado inválido, que tinha perdido a vontade de viver e que até tentou se matar tomando remédios... — Soltou uma risadinha debochada. — Eu achei que a Carolina te amasse de verdade. Quem diria que ela só ficou por culpa? Agora é que vai ficar interessante. Sem esse peso nas costas, quem garante que ela ainda vai querer ficar?
Henrique já cerrava os punhos com tanta força que os nós dos dedos estavam brancos. O rosto escureceu, e o olhar, gelado, permaneceu fixo à frente. Ele não disse nada.
César continuou, saboreando cada palavra:
— Você a trata como esposa, mas isso não quer dizer que ela te veja como marido. Afinal, vocês dois não têm vínculo legal nenhum. Se ela quiser terminar, nem precisa dizer adeus. Basta cortar tudo e ir embora. Simples assim.
Depois disso, endireitou-se, deu dois tapinhas no ombro de Henrique e saiu com a maior tranquilidade, em direção ao jardim.
Assim que César se afastou, Enrico percebeu que havia algo errado com o irmão. Aproximou-se e encontrou nos olhos escuros dele uma dor funda, desamparo puro.
— Rick, o que foi?
Henrique apertou os lábios, contendo a amargura. Baixou os olhos, soltou uma risada seca de si mesmo e balançou a cabeça.
— Não é nada.
— Não parece.
Henrique soltou um suspiro longo, pesado, como se viesse do fundo do peito. Depois recostou-se na cadeira, abaixou a cabeça, fechou os olhos e murmurou:
— Sério... Não é nada.
Enrico sentou-se ao lado dele. Com as mãos apoiadas nas coxas, tamborilou os dedos de leve, tentando consolá-lo, embora nem ele mesmo parecesse muito convicto do que dizia.
— Eu sou dois anos mais velho que você, mas não entendo nada de relacionamento, então não tenho como te aconselhar nessa parte. Agora, se for problema de trabalho, de vida, seja lá o que for... Você pode falar comigo. Nós somos irmãos. Entre a gente não tem assunto proibido.
Henrique curvou os lábios num sorriso fraco, morno e amargo.
— Então me ajuda a investigar o nosso primo. A rede de proteção dele já se meteu com umas empresas bem podres.
— César?
— Sim. — Henrique assentiu, em voz baixa. — Grupo Nogueira Lima.
— Entendi. — O olhar sombrio de Enrico percorreu o ambiente, mas César já tinha sumido de vista. — Mas o que o problema dele tem a ver com você?
— É um caso que a Carol está conduzindo. A pressão já chegou no escritório dela.
— Entendi.
Na mesma hora, Enrico recuperou a firmeza. Desde que não envolvesse romance, ele sabia muito bem como lidar com qualquer situação.
Henrique voltou a se calar, afundando de novo naquela tristeza pesada.
— Vamos jogar uma partida de xadrez.
Sem esperar resposta, Enrico se levantou para pegar o tabuleiro.
Henrique soltou um protesto fraco, sem ânimo sequer para resistir.
— Mano, eu não tenho a menor chance contra você. Jogar com você é botar um iniciante contra um mestre. Você vai me atropelar.
— Então eu começo sem as duas torres.
— Mesmo assim eu perco.
— Tá. Então sem as duas torres e sem um bispo.
Henrique soltou um sorriso amargo.
— Se eu perder desse jeito, vai ser ainda mais humilhante.
Enrico já tinha aberto o tabuleiro sobre a mesa de centro. Estava decidido a jogar de qualquer forma, então ajudou Henrique a se aproximar e se sentar.
— Se você achar que não dá conta, chama a Carol pra ser sua estrategista. Ela joga melhor do que você.
Henrique sentou-se, e o olhar voltou a escurecer. Entreabriu os lábios e soltou o ar devagar, como se houvesse uma pedra esmagando seu peito e impedindo-o de respirar direito.

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