"Carmem"
No momento em que a Candinha me falou que o José Miguel tinha se desfeito de todas as coisas da Cora, eu subi as escadas correndo e entrei no quarto dele, fui direto para o closet e verifiquei cada canto, não havia nem sombra de que a minha filha um dia tivesse habitado aquele quarto, não havia nada dela ali e enquanto eu verificava eu notei que faltavam também alguns ternos e gravatas do José Miguel.
Eu fui até o criado mudo e abri a gaveta, a aliança não estava mais ali, nem as duas fotos que ele guardava. O que tinha acontecido? Por que ele tinha feito isso? Como? Eu me virei para sair daquele quarto sentindo que o mundo estava desmoronando. Tudo o que eu tinha feito em anos para mantê-lo sob o meu domínio, parecia ter se desfeito em poucos dias.
Eu passei pela Candinha e a Berta com a cabeça explodindo com milhares de pensamentos ao mesmo tempo e quando passei pelo quarto ao lado do dele, que estava com a porta aberta, eu senti aquele perfume, eu conhecia aquele perfume, "Boss Bottled", era o perfume daquele cretino do Matheus! Eu reconhecia o cheiro daquele demônio a quilômetros, porque ele sempre usou esse perfume. Eu entrei no quarto e olhei cada canto, mas não encontrei vestígio dele, era só o cheiro que estava ali.
- Aquele filho de uma libertina estava aqui, Cândida? - Eu a encarei e ela olhou para a Berta como se não tivesse entendido. - RESPONDA! E não minta, eu sinto o cheiro, o perfume dele.
- Perfume de quem, Urtiguinha? Pra mim esse quarto cheira a desinfetante de erva doce. É relaxante! - A Berta respondeu e eu a encarei sem acreditar, o perfume ali não era erva doce, embora esse fosse o cheiro do desinfetante que a Candinha usava na casa e a Berta não tivesse como saber disso.
- Candinha, aquele pulguento do Matheus esteve aqui? - Eu insisti.
- Nem por um minuto, D. Carmem, a senhora sabe que ele não entra nessa casa, a única exceção é no dia do aniversário de falecimento... a senhora sabe.
- Urtiguinha, acho que você passou tempo demais naquele hospital, vem, você precisa descansar. Candinha, qual é o quarto da Urtiguinha?
A Candinha foi na frente e a Berta tentou segurar o meu braço, mas eu a empurrei irritada. Eu não podia estar delirando. O cheiro do Matheus estava ali e foi ele quem fez o José Miguel se livrar de tudo. Eu peguei a chave do meu quarto do bolso da minha calça e destranquei a porta, felizmente ninguém podia entrar no meu quarto, estava sempre trancado e a chave comigo e no dia em que eu tomei aquele comprimido e fiz a cena do suicídio a chave estava no meu bolso como sempre. Atá a faxineira, só entrava quando eu permitia e sob a minha supervisão.
Eu abri a porta sentindo que ia ter um colapso nervoso, mas no meu quarto eu me acalmaria. Porque lá o José Miguel não tinha mexido, eu tinha certeza. Mas quando eu abri a porta, o cheiro invadiu o meu nariz outra vez. O perfume do filho de uma meretriz estava impregnado no meu quarto. Mas isso era impossível! Eu não podia estar ficando louca!
- CÂNDIDA! AQUELE CRETINO ESTEVE AQUI! - Eu gritei e ela me olhou como se não compreendesse. - ELE ENTROU NO MEU QUARTO!
- D. Carmem, ninguém entrou no seu quarto! Só a senhora tem a chave! - A Cândida me encarou com preocxupação. - Acho que a senhora não está bem, talvez eu deva chamar o Dr. Mauro.
- EU NÃO PRECISO DAQUELE INCOMPETENTE! - Eu gritei com ela e sapateei.
- Ah, Urtiguinha, vem...
- NÃO ME CHAMA DE URTIGUINHAA!
- Calma! - A Berta colocou as duas mãos abertas em frente ao corpo, como se me pedisse para parar. - Vem, é melhor você se deitar um pouco. Vou te ajudar e vou preparar um cházinho pra você! Você gosta de chá, não gosta? Talvez você esteja só abalada pelas mudanças que o Sr. Rossi fez na casa. Se você deitar e tirar uma soneca, você vai acordar bem melhor!
- EU NÃO QUERO DORMIR! - Eu gritei mais uma vez.
Mas talvez fosse bom me deitar um pouco, talvez o choque pelo José Miguel ter tirado de casa tudo o que era da Cora tenha sido demais para mim. E talvez um chá fosse uma boa idéia.
- Eu vou me deitar! Você me traz um chá de camomila, adoce com adoçante Antes de ir abra a janela. - Eu avisei e me sentei na cama tirando os sapatos, talvez ter uma serviçal pessoal não fosse de todo ruim.
Mas assim que que coloquei a minha cabeça no travesseiro eu senti o perfume daquele demônio no meu travesseiro. Estava impregnado.
- CÂNDIDA! - Eu me sentei na came e estendi o travesseiro para ela. - SINTA O CHEIRO! AQUELE DEMÔNIO SE DEITOS NA MINHA CAMA!

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