~NICOLAS~
O corredor do hospital estava silencioso, exceto pelo som distante de passos ecoando no piso frio. Entrei no quarto de Isabela segurando a mão de Amélie, que apertava meu dedo com força enquanto seus olhinhos percorriam cada canto do ambiente branco e impessoal. Isabela estava sentada na poltrona ao lado da janela, envolta em um cobertor macio. Seus olhos vagavam para fora, focados em algo que não estava ali.
A TV estava ligada em algum programa antigo, mas o som baixo se misturava com o zumbido dos aparelhos médicos e o sutil som do vento batendo contra o vidro. E por alguns minutos, apenas nos juntamos a Isabela, contando histórias que jamais saberíamos se ela estava absorvendo.
— Mamãe — a voz doce de Amélie cortou o ar, hesitante. — A tia Sofia disse que eu vou ter uma apresentação de balé logo, e eu queria tanto que você fosse ver…
A pequena caminhou até a mãe, seus sapatinhos fazendo um som abafado no chão encerado. Ela tocou suavemente a mão de Isabela, seus dedos pequenos e delicados contra a pele pálida da mãe.
— Você iria gostar, mamãe — ela continuou, com uma coragem admirável para seus cinco anos. — Eu prometo que vou ser a melhor de todas. Vou rodopiar igual aquelas princesas dos filmes na TV.
Isabela não respondeu. Nem sequer moveu os olhos. Apenas continuou olhando para fora, para algum ponto perdido no horizonte, onde talvez ela ainda tivesse a vida que lhe foi roubada, em algum lugar onde tudo era diferente, mais leve.
Meu peito apertou. Era como se ela estivesse em outro mundo, distante demais para que pudéssemos alcançá-la.
— Vamos, princesa — falei suavemente, abaixando-me ao lado dela e tocando seu ombro com delicadeza. — A mamãe está cansada. Vamos deixá-la descansar.
Amélie hesitou, olhando para Isabela uma última vez antes de se virar para mim. Seus olhos grandes e marejados me acertaram em cheio, e por um momento, senti que o peso de tudo aquilo era mais do que eu podia suportar. Peguei-a no colo, e ela enterrou o rosto no meu pescoço, silenciosa.
Antes de sair, olhei novamente para Isabela. Minha esposa. Minha responsabilidade. Mas, acima de tudo, um lembrete constante do que eu havia perdido — do que todos nós havíamos perdido.
Ela não estava mais ali. Apenas seu corpo permanecia, como uma concha vazia que respirava, mas não vivia.
Suspirei fundo e saí, fechando a porta com cuidado atrás de mim. O corredor parecia mais frio agora, mais pesado.
Enquanto caminhava para o carro com Amélie ainda agarrada a mim, não pude evitar pensar no quanto eu estava falhando com ambas. Eu não podia consertar Isabela. Eu não podia devolver a mãe de Amélie. E, por mais que tentasse ser tudo para aquela garotinha, o vazio deixado por Isabela era um buraco que eu jamais conseguiria preencher.
O caminho de volta para casa foi silencioso. Amélie cochilou no banco de trás e, por um momento, deixei minha mente vagar. Por mais que eu me esforçasse para manter tudo sob controle, o peso da culpa estava me esmagando.
Ayla.
Seu nome parecia ecoar na minha cabeça mais vezes do que eu gostaria de admitir. Eu estava sendo egoísta. Não tinha o direito de seguir em frente enquanto Isabela estivesse presa naquela condição. Enquanto Amélie ainda olhava para mim com aqueles olhos cheios de perguntas que eu não podia responder.
Quando chegamos à mansão, Amélie acordou com um bocejo suave. Entreguei-a para uma das babás, que a levou para brincar na sala de jogos com Mia. Subi até o bar do terraço, disposto a pegar uma bebida, vi Ricardo encostado no balcão, com um copo de whisky na mão e o olhar perdido no horizonte.
— Não sai mais daqui, Ricardo? — brinquei, servindo-me de uma dose também.
— São as vantagens de ter um primo rico que mora em um condomínio de luxo — ele respondeu com um sorriso torto. — Além do mais, esse bar tem as melhores bebidas. Não tem como resistir.

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