Eu não sabia como Teri e Paulo tinham me convencido a subir até ali. Talvez tenha sido o olhar determinado de Teri ou as palavras encorajadoras de Paulo, mas, de alguma forma, estávamos agora na sala de espera do Grupo Sartori.
O ambiente era frio, sofisticado e impecavelmente silencioso. Cada detalhe, desde os móveis minimalistas até o aroma amadeirado que pairava no ar, parecia gritar “poder”. E, no meio daquele cenário, eu me sentia tão deslocada quanto um peixe fora d'água.
Olhei para a porta de vidro no final do corredor, a mesma porta que levava ao terraço do prédio. A imagem veio como um soco no estômago: eu, atravessando aquela mesma porta, desesperada, correndo em direção ao vazio que parecia ser minha única saída. Pisquei algumas vezes, tentando afastar a lembrança. Era só uma memória distorcida, não era real. Não podia ser.
— Eu não posso fazer isso — murmurei, virando-me para Teri. — Não tem a mínima chance de eu ficar frente a frente com Nicolas de novo.
Teri franziu o cenho, mas manteve o tom leve, como sempre fazia quando eu estava à beira de um colapso.
— Ayla, respira. Se Nicolas realmente for alguém importante aqui dentro, como o sobrenome dele sugere, você acha que ele vai perder tempo recebendo duas locatárias desesperadas? Por favor, vão mandar algum funcionário meia-boca para nos enrolar e mandar de volta pra casa.
Quase como se as palavras dela tivessem invocado o destino, uma secretária saiu de uma das salas e chamou nossos nomes.
— Senhorita Ayla Navarro e Senhorita Caterina Vilar? O senhor Ricardo Belmonte irá recebê-las agora.
O coração afundou no meu peito. Era isso. A hora da verdade.
A sala era ampla, com janelas panorâmicas que ofereciam uma vista absurda da cidade lá fora. Ricardo Belmonte, um homem alto, de cabelos escuros e olhos frios, estava sentado atrás de uma mesa de madeira maciça. Seu olhar parecia nos analisar, como se já soubesse que estávamos prestes a pedir algo impossível.
— Sentem-se — disse ele, sem sorrir. Nos acomodamos nas cadeiras de couro diante dele. — Se puderem ir direto ao ponto...
Foi Teri quem falou primeiro.
— Nós sabemos que o prédio foi adquirido para a construção de um condomínio de luxo, senhor Belmonte. Mas gostaríamos de apresentar uma proposta. Nós... os moradores, estamos dispostos a continuar pagando o aluguel mensal, com um acréscimo, para que possamos adquirir os imóveis pouco a pouco.
Ricardo arqueou uma sobrancelha, um sorriso enviesado surgindo no canto dos lábios.
— E vocês têm ideia do valor de mercado de um apartamento em um condomínio de luxo?
Olhei para Teri, que parecia tão sem palavras quanto eu.
— Vocês querem me dizer que vão pagar, mês a mês, o valor de um imóvel que provavelmente custa mais do que todos vocês juntos poderiam ganhar em uma vida inteira?
O silêncio foi sufocante. Ricardo riu, como se aquilo fosse a coisa mais absurda que já tinha ouvido.
— Vocês realmente são só ingênuas... — Ricardo disse, com um sorriso quase piedoso no rosto. — Ou extremamente otimistas?
A vergonha queimava meu rosto, mas antes que eu pudesse responder, a porta atrás de nós se abriu com força.
— Ricardo, você viu os relatórios… — A voz dele me atingiu antes mesmo que eu virasse para olhar.
Nicolas.
Ele parou no meio da frase quando nossos olhares se encontraram. O mundo pareceu congelar por um segundo. O silêncio que se instalou foi ensurdecedor.
— Eu… não sabia que você estava em uma reunião — ele murmurou, mas seus olhos não deixaram os meus.
Meu coração batia tão forte que eu podia senti-lo na garganta. Sem pensar, sem respirar, sem conseguir articular qualquer coisa, me levantei bruscamente e saí pela porta.
— Ayla! — Ouvi Teri me chamar, mas meus pés já me levavam para fora. Corri pelo corredor, ignorando olhares curiosos de funcionários e seguranças.
Minhas mãos empurraram a porta de emergência, e subi os degraus em disparada até chegar ao terraço. O ar frio me atingiu em cheio, e a cidade se estendia abaixo de mim, brilhando com suas luzes infinitas.
— A única verdade é que tudo o que você quer, você pode conseguir com a Nyx. Você não precisa de mim.
— Então por que eu nunca quis transar com a Nyx? — ele desafiou.
Fiquei sem palavras.
— Porque desde o primeiro momento, eu fiquei encantado com a mulher que vi naquele terraço, naquela noite. Era você, Ayla. Sempre foi você.
Eu o olhava, completamente exposta, vulnerável. O rosto dele estava tão perto do meu que eu podia sentir sua respiração. Meu coração batia descompassado, e por um momento, tudo ao nosso redor pareceu desaparecer.
Eu queria odiá-lo. Queria me lembrar de cada palavra fria naquela mensagem, de como ele me deixou esperando no restaurante, sozinha, com o coração esmagado. Mas, naquele instante, parecia impossível. Porque ele estava ali, tão perto, tão real, dizendo coisas que bagunçavam tudo dentro de mim.
Eu não sabia se era raiva, mágoa ou algo muito mais profundo que me fazia ficar parada, incapaz de recuar. Tudo o que eu sabia era que ele estava ali, e por mais que eu quisesse lutar contra isso, uma parte de mim... queria ceder.
Foi nesse instante que a porta do terraço se abriu com força, trazendo a realidade de volta e rompendo o fio frágil que nos prendia naquele momento.
— Senhor Sartori! — A secretária de Nicolas parecia nervosa. — É o hospital. Sua esposa… é urgente.
O mundo pareceu girar ao meu redor.
Esposa.
Nicolas era casado. E sua esposa estava no hospital.
Senti o estômago afundar. Empurrei Nicolas com força e corri para longe dele. Mais uma vez.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Amor por Acidente - A Stripper e o Bilionário
Libera todos os capítulos...