Capítulo 110
Mariana Bazzi
Eu não sabia que felicidade podia ter gosto de alívio.
Depois de tudo que passei, de tudo que escondi, de tudo que suportei… estar ao lado do Ezequiel era como voltar a respirar. Pela primeira vez, de verdade.
Mas foi quando ele me olhou, sentado ao meu lado, e disse:
— Vamos levar sua mãe pra nossa casa hoje. Ela vai morar com a gente. — …que eu percebi o quanto aquele homem estava disposto a reconstruir minha vida comigo. Não apenas me salvar. Ele queria cuidar do que era meu. Do que eu achava que ninguém mais olharia.
Minhas mãos tremiam quando fui até o armário pequeno onde guardava as poucas coisas que ainda restavam da minha mãe e a arrumava pra levantar.
— Tá pronta? — ele perguntou quando voltei pra sala.
— Sempre — respondi, segurando firme a cadeira de rodas que ela sentaria até que pudesse voltar a andar normalmente.
Ezequiel ajudou os médicos a levarem ela, e fiquei tão diferente agora.
A viagem foi silenciosa. Não precisávamos de palavras. Eu sabia que ele entendia o que significava aquilo pra mim. E quando chegamos… eu juro que tive que me controlar.
O quarto dela era enorme, bem iluminado, com janelas grandes e cortinas claras. As paredes tinham quadros com paisagens calmas, e havia um sofá ao lado da cama adaptada onde minha mãe seria acomodada. Dois médicos já estavam lá, junto com uma enfermeira. Tudo pronto. Tudo pensado por ele.
— Aqui é o espaço dela. Seguro, confortável. — ele disse, com a mão nas minhas costas.
— Obrigada.
Ele só me olhou com aquele jeito dele intenso, sério. Mas os olhos dele falavam mais que mil palavras.
Depois de deixar minha mãe bem instalada, fui até onde sabia que encontraria Sara. Ela estava organizando alguns papéis em uma sala de vigilância da casa. Bati levemente na porta.
— Oi.
Ela ergueu os olhos e me lançou um olhar curioso.
— Mariana? Aconteceu algo?
— Quero começar o treinamento.
Sara arqueou uma sobrancelha, surpresa.
— Agora?
Assenti.
— Já perdi tempo demais.
Ela me observou por um instante, como se estivesse medindo se era mesmo sério. E então, sorriu de canto.
— Então vem comigo.
Seguimos por um corredor lateral até uma espécie de sala de treino — um espaço com tatames no chão, espelhos nas paredes e prateleiras com armas de madeira e equipamentos de proteção. Eu me senti determinada. Era ali que começava a minha nova versão.
— Vamos começar com o básico. Defesa, depois ataque. Aprender a cair sem se machucar, a se posicionar, a observar. — ela explicou, enquanto entregava uma faixa de punho e ajustava meu cabelo num coque firme. — Força bruta é uma vantagem, mas inteligência e precisão vencem lutas. E, no seu caso, autocontrole vai ser essencial.
— Tá. Me ensina.
Começamos com posições de defesa. Postura, equilíbrio. No início, meus pés se atrapalhavam, meu corpo hesitava, mas quanto mais ela corrigia, mais eu me ajustava. O suor começou a escorrer antes mesmo da primeira hora terminar. Meus braços doíam. As coxas ardiam, mas eu não parei.
— De novo. — falei quando ela tentou encerrar o exercício.
Sara me olhou como quem começa a respeitar de verdade.

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