Capítulo 111
Sara
Algumas pessoas surpreendem a gente do nada. Outras… a gente subestima até o momento em que elas se recusam a ser ignoradas. Mariana Bazzi é a segunda opção.
Ainda era cedo quando meu celular vibrou com uma mensagem dela.
"Estou pronta. Onde você está?"
Franzi o cenho. Nem sete da manhã.
"Pronta pra quê?" — respondi.
"Treino. Vamos atirar hoje. Não demore."
Suspirei, puxando o elástico pra prender o cabelo ainda bagunçado. Aquilo não era comum. Nem de perto. A maioria dos novatos queria dormir depois do primeiro dia pesado. Queria descanso, café e desculpas. Mariana… queria munição.
Quando cheguei na sala de treino, ela já estava lá. Calça preta, camiseta justa presa na cintura, cabelo preso, postura firme. Não parecia alguém que tinha treinado até quase desmaiar na noite anterior. Ela parecia uma soldada em formação.
— Você não dormiu? — perguntei.
— Dormi o suficiente. Cuidei da minha mãe e de Ezequiel. Vamos?
Não discuti. Só peguei as armas, destravei a porta para a área de tiro e a levei até lá. Um espaço grande, com alvos de papel, silhuetas móveis e sons abafados de estalo que imitavam tiros reais.
Ontem quando ela atirou quis entender como foi isso, mas não consegui. Ela atirou contra os homens de Yulssef e já acertou o alvo aqui.
Ela escolheu uma Glock de verdade dessa vez. Nada de réplica. Posicionou os pés, alinhou os braços e atirou.
Pá. Pá. Pá.
Três alvos furados. O olhar dela estava vidrado, preciso. Nada de hesitação, nem tremor.
— Você sabe o que está fazendo. — comentei, apoiando os braços. — Que interessante.
Ela assentiu.
— Quero melhorar. — respondeu, recarregando com eficiência.
— E como aprendeu tão rápido? Com uma breve explicação que te dei, ontem?
— Sara, se houver alguma mulher, alguma garota por aí, em perigo… eu quero estar bem preparada.
Parei.
— Tem alguma? — ela perguntou, séria. — Alguma menina ou mulher pra ser resgatada hoje?
Hesitei. Aquilo… não era uma pergunta simples.
— Não posso te dizer. — respondi. — O lugar que vamos… não é seguro nem pra gente experiente. Não agora. Você precisaria ver com o Don.
Ela apertou os lábios, mas não insistiu. Voltou ao treino e não parou. Enquanto eu achava que a mente dela ia desligar em algum momento, que o corpo pediria arrego, Mariana seguia. Como se estivesse queimando algo por dentro.
Quando o relógio bateu meio-dia, e ela ainda estava atirando com precisão cada vez mais refinada, decidi que já era hora de uma conversa séria.
Fui até Ezequiel. Ele estava no andar de cima, lendo alguns documentos com cara de quem ainda carregava o mundo nos ombros, mesmo sem o peso da chefia direta. Bati na porta.
— Posso?
Ele ergueu os olhos.
— Claro. Entra.
Cruzei os braços, direta.
— Mariana não para. Ela treinou o dia inteiro ontem, tá atirando desde o nascer do sol. Isso pode ser perigoso. Ela está ansiosa demais.
Ele pousou os papéis e me olhou com calma.
— Então diga isso a ela.
— Eu já disse. Ela não me ouve. Está obcecada. Parece que quer morrer de exaustão só pra provar alguma coisa.
Ezequiel se recostou na cadeira, cruzando os braços.
— Sara, você está esquecendo de uma coisa.
— O quê?

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