Capítulo 188
Ezequiel Costa Júnior
Vi tudo pelas câmeras. Cada passo. Cada olhar dissimulado da Soraya. A distração idiota do soldado. E por fim, a fuga.
Iris entrou no carro. Um movimento hesitante, mas consciente. Ela sabia o que estava fazendo. Cumpriu a ordem.
O soldado? Um estorvo morto no chão, já era.
Se traiu, teve sorte de morrer com um tiro. Eu faria muito pior depois, com certeza.
— Filho da puta mole… — murmurei, já com a munição nos bolsos. Engatei a metralhadora nas costas, prendi as pistolas na cintura e desci os fundos da casa com o rádio preso ao ombro, a respiração firme.
Deixei isso com Aaron e com Sara. Essa era minha caçada e iria atrás deles. Com Iris envolvida, não existia margem pra erro.
O carro mais veloz já me esperava com o motor ligado. Avelar no volante. Olhar fixo.
— Vai. Pisa o mais fundo que o motor aguentar e vamos por um caminho paralelo. Não gosto de avisar. A chegada deve ser em grande estilo — ordenei, entrando e encaixando o fuzil no colo como se fosse extensão do meu braço.
— Sim, Don.
O carro saiu rasgando a estrada de cascalho. A vegetação ao redor virou borrão.
— Mantenha distância do carro onde elas estão, mas o bastante pra interceptar se necessário — falei, já regulando o rádio. — Canal quatro, vigilância aérea, respondam.
— Já temos visual da Soraya através de drone, Don. Ela está a caminho da fronteira leste. Atravessou a zona segura. Mais vinte minutos e entra na área neutra.
— Drones bem posicionados?
— Três no céu, dois seguindo por solo.
— Boa. Não ataquem até minha ordem.
O rádio chiou de novo. E então, um alerta na tela do sistema interno: veículo não identificado se aproximando por retaguarda.
— Quem tá vindo atrás da gente? — perguntei, virando ligeiro.
Um carro longo, pintura impecável, brilho fosco e sinistro sob a luz fraca da estrada. Eu já conhecia.
Avelar olhou pelo retrovisor e respondeu antes:
— É um dos nossos. A Limusine… a que o senhor deu pra senhora Mariana.
Travei o maxilar.
— Pois é.
— Não era pra ela usar? — ele perguntou.
— Justamente. É o queridinho dela. Não deixei ninguém dirigir.
Suspirei e ativei o rádio.
— Veículo três atrás da minha unidade, identifique-se.
Silêncio.
Repeti, mais firme:
— Veículo da retaguarda, respondam ou serão interceptados.
Nada. Nem um sussurro.
Olhei pra Avelar.
— Aumenta a velocidade. Mas não tira os olhos da estrada. Se essa merda nos fechar, eu explodo o capô antes do cara frear. Se fosse meu soldado teria respondido.
— Sim, Don.
A metralhadora estava fria nas minhas mãos, mas meus olhos queimavam. Algo estava errado. Eu deixei claro, ninguém deveria estar usando aquele carro.
O carro tremeu ao lado direito. O ruído seco de algo se arrastando no asfalto.
— Don, surgiu um pequeno problema... — Avelar disse, e sua voz me irritou antes mesmo da frase terminar.

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