Capítulo 198
Mariana Bazzi
Entramos na casa nova dos meus pais, ainda cheirando a tinta fresca e aconchego. O sol da tarde se infiltrava pelas janelas largas, tocando os móveis novos com uma luz dourada. E ali, na cozinha aberta, vi uma cena que me fez sorrir: meu pai, já com o avental amarrado no corpo e as mangas da camisa dobradas, picava cenouras com concentração de chefe de restaurante cinco estrelas.
— Uau, olha só esse chef! — brinquei, colocando as mãos na cintura.
Ele riu, sem parar o movimento da faca sobre a tábua.
— Aqui é assim, filha. Se a neta ou o neto está a caminho, tem que comer coisa boa. — Olhou para mim com orgulho. — Tô fazendo aquele caldo que sua mãe amava quando estava grávida. Carne desfiada, mandioquinha, cenoura, cheiro-verde e um toque especial que não vou contar.
— Toque especial de pai? — perguntei, arqueando uma sobrancelha.
— Exatamente. Receita secreta.
Minha mãe surgiu do quarto já sem o avental que usava antes e com o cabelo preso num coque apressado.
— Ele tá se achando, viu? — disse, piscando pra mim. — Mas a verdade é que esse caldo é mesmo uma delícia. E bom pra enjoo.
Me sentei no sofá com Ezequiel enquanto minha mãe ajudava com as bebidas e organizava a mesa. A tranquilidade daquele momento era uma espécie de cura — simples, silenciosa, mas profunda.
Foi então que ouvimos o som de um carro estacionando. Em segundos, a porta abriu e Íris entrou com seu sorriso leve e confiante, ao lado de Avelar, que a acompanhava com o braço envolto na cintura dela.
— Boa tarde, família linda! — ela exclamou.
Todos sorrimos e os cumprimentamos. Ezequiel apertou a mão de Avelar, que parecia cada vez mais à vontade no ambiente.
— Até que enfim apareceram — Safira resmungou, meio divertida. — Nem dormiu em casa de novo, Íris? Vai acabar se mudando para o apartamento de Avelar.
Íris olhou para ela com aquele olhar de quem está prestes a anunciar algo grande.
— Mãe… na verdade, é isso mesmo. Eu e Avelar vamos morar juntos. A partir da próxima semana.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Aquela que o Don não pôde deixar partir