Capítulo 199
Ezequiel Costa Júnior
Um mês depois — Mariana teve um sangramento.
Mantive o pisca-alerta ligado enquanto cortava a cidade feito um louco. Mariana estava no banco do carona, com as mãos trêmulas sobre a barriga e os olhos cheios de medo. Um maldito sangramento apareceu. Algo dentro de mim travou na hora que soube, e agora nada — nem sinal vermelho, nem polícia, nem o próprio inferno — ia me impedir de chegar até aquela clínica o mais rápido possível.
— Vai ficar tudo bem, amor. — Tentei dizer, sem saber se mentia pra ela ou pra mim.
O volante rangia sob a pressão dos meus dedos. Eu só conseguia pensar nela, no bebê. No meu filho ou filha. Se alguma coisa acontecesse com eles...
Chegamos em menos de dez minutos. Quase destruí o portão da clínica. Quando os recepcionistas tentaram barrar a entrada por causa de protocolo ou qualquer merda parecida, mostrei a arma no cós da calça e o sobrenome que carregava. Bastou. Mariana foi colocada imediatamente numa maca e levada para a sala de exames.
Mas aí veio o absurdo.
— O senhor precisa esperar lá fora. — a médica disse, olhando pra mim como se eu fosse um cidadão qualquer.
— Acha mesmo que vai me tirar daqui?! — retruquei, o olhar queimando. — Essa mulher é MINHA. Essa criança é MINHA. Eu vou onde eu quiser.
— Senhor, é o protocolo...
— Protocolo é o caralho! — puxei a arma, destravei com um estalo seco. — Me tira daqui e você vai precisar de mais do que um jaleco pra se proteger.
Foi nesse momento que Mauro e Samira chegaram correndo, tentando colocar panos quentes.
— Ezequiel, calma! — Mauro disse, erguendo as mãos. — Ela tá em boas mãos, você sabe disso!
— Estou calmo! Mas vou virar no demônio daqui a pouco — gritei, o olhar preso na médica. — Só quero estar com a mãe do meu filho. É pedir muito?
Samira segurou meu braço, tentando suavizar o clima, mas o sangue ainda fervia. E a médica, provavelmente com medo de que aquilo terminasse em tragédia, deu dois passos pra trás e assentiu com a cabeça.
— Tudo bem. Pode entrar.
Guardei a arma com um meio sorriso. Não agradeci. Não era favor.
Entrei na sala, e lá estava Mariana, deitada, já com o gel na barriga. As lágrimas ainda pendiam dos cílios dela, mas seu olhar encontrou o meu e aquilo bastou pra me dar um respiro. Segurei a mão dela com firmeza. Ninguém mais falou nada.
O som do coração do bebê preencheu a sala, forte, acelerado. Vivo. Eu fechei os olhos por um segundo e soltei o ar que não sabia que estava prendendo.
— Está tudo bem. — disse a médica. — O bebê está saudável, sem sinais de descolamento ou risco maior. Podem ficar tranquilos. Só é bom um pouco de repouso.
Mariana começou a chorar de alívio. Eu quase.
A médica continuou os exames, fez todas as medições e, por fim, sorriu discreta.

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