Capítulo 27
Mariana Bazzi
A cozinha era grande, moderna, cheia de utensílios que eu nunca tinha usado na vida. O cheiro de cebola refogada me fazia lacrimejar, mas o que me fazia tremer mesmo era a lembrança do olhar de Ezequiel. Vazio. Frio.
A doutora Samira não saiu do meu lado nem por um segundo. Quando um dos soldados se aproximou da entrada da cozinha, ela fez questão de mostrar o crachá, a autoridade. A cozinha era minha — pelo menos por agora.
— Vai ficar tudo bem — ela sussurrou, cortando os legumes comigo. — Ele tá confuso. Não é você que ele quer machucar.
— Mas e se for? — perguntei, sem tirar os olhos da panela. Minhas mãos tremiam tanto que quase derrubei a cenoura picada.
Samira suspirou, mexendo o caldo.
— Então você vai estar comigo. Eu vou te proteger.
Quando a sopa ficou pronta, eu mal conseguia sentir o cheiro do que preparei. Estava zonza, tensa, com os braços doloridos de tanto conter o pânico. Ainda assim, enchi a tigela com cuidado, segurando com as duas mãos, como se fosse cristal.
Fomos até o quarto.
O médico do lado de fora examinou o conteúdo, liberou a entrada — era só legumes, afinal. Mas quando íamos entrar, a voz de Ezequiel saiu como um comando:
— A outra fica aí fora. Quero privacidade.
Samira se adiantou.
— Don Ezequiel, sou a médica dela. Você não lembra, mas me pediu para que cuidasse o máximo possível dessa mulher.
Ele riu, debochado.
— A única coisa que estou me lembrando agora é que te comprei. Você nem é médica. Some daqui!
— Mas Ezequiel! Você mesmo pagou meus estudos e...
— Fora! Eu nunca pagaria isso. Parem de me achar com cara de idiota! Eu te comprei. Vá pro seu quarto. Quando eu me recuperar, talvez queira você.
Fiquei paralisada. Samira olhou para mim, com o rosto lívido, como se tivesse levado um tapa.
— Agora você foi longe demais! — minha voz saiu antes que eu pudesse pensar. — Ela deve ter provas de que você pagou por tudo, tem certificado, mas se repetir que ela é prisioneira e que a quer... eu vou levar essa sopa de volta e vai ficar com fome!
Ele me encarou. Devagar, puxou uma arma de baixo do travesseiro e começou a mexer nela, girando-a nos dedos como quem pensa em algo perigoso.
— Sabe... eu deveria apontar pras duas, mas seu rosto me traz algo na memória que não consigo evitar. Então, pra não termos problema, a outra vai sair e você vai me servir a sopa na boca. Não quero precisar usar isso com você.
"Pra pegar a arma estava bom, mas pra comer quer na boca?"
Samira tentou intervir:
— Eu posso fazer isso, Don Ezequiel! Mariana tem androfobia. Ainda lembra o que é? Eu dou a sopa pra você. Sou médica, mesmo, não ligo.
Ele bufou, carregando arrogância.
— O que é, eu sei perfeitamente. Sou médico formado, coisa que você não sabe o que é.
— Eu sei muito bem. Fui contratada exclusivamente para cuidar dela e não vou deixar minha paciente sozinha assim — o enfrentou.
— Tá, tanto faz! Me ajude com a porra da sopa, mas ela vai segurar a tigela e ficar aqui do lado.
Engoli em seco. Minha perna tremia.

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