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Aquela que o Don não pôde deixar partir romance Capítulo 29

Capítulo 29

Mariana Bazzi

Já faz uma semana. Sete dias inteiros desde que Ezequiel acordou sem lembrar de mim. Sete longos dias em que seus olhos passavam por mim como se eu fosse apenas mais um vulto entre tantos. Como se tudo que conversamos antes do acidente tivesse se evaporado. Outras vezes, via o desejo nele, e ao me afastar o via sorrindo. E mesmo assim, quando mandou me chamar, fui. Mas continuo aqui, esperando que ele acorde com a cabeça de antes, que volte a ser o meu Ezequiel.

Empurrei a porta devagar, sentindo o peso da frustração se alojar no peito. O quarto tinha o mesmo cheiro forte de remédios, mas o maracujá ainda estava ali, intacto, em cima da cômoda. A fruta começava a enrugar, esquecida. Era irônico — ele havia me dado aquilo num dos dias mais estranhos e mais doces que tivemos. Agora... agora ele nem sabia o motivo daquilo estar ali.

Meus olhos se fixaram na fruta enquanto ele falava:

— Se aproxime — estava com a voz mais firme do que nos dias anteriores.

Obedeci, mais por curiosidade do que por obediência real. Ele estava diferente. Mais erguido, o olhar menos perdido.

— Estou cansado dessas sopas ridículas — resmungou. — Quero uma comida de verdade. Uma à altura de um Don.

— Não sou a cozinheira — retruquei, ríspida, mais do que deveria. Mas eu também estava cansada. Cansada de ser tratada como invisível. Como descartável — Não sei porque insiste em me fazer cozinhar.

Ele então se levantou. Rápido, decidido. Me movi instintivamente para trás, os pés tropeçando até minhas costas encostarem na parede. Mas não havia medo em mim, não como antes. Apenas uma atenção silenciosa, uma análise fria e uma leve ansiedade. Ele posicionou a mão como se prendesse. Exatamente igual fazia antes, a diferença é que tinha coração.

— Pois estou te nomeando agora. Inclusive, já estou ótimo. — gritou, com a voz ecoando pelas paredes. — YULSSEF! VENHA AQUI! — Não vou negar que estremeci com o grito, mas mantive o rosto erguido pra ele.

A porta abriu imediatamente, e Yulssef entrou com sua postura impecável. Eu continuei parada, observando. O grito dele, o modo como se aproximou de mim… nada daquilo me apavorava como antes. Eu só queria entender quem ele era agora. E se ainda havia algo do Ezequiel que eu conhecia por trás daqueles olhos tão cheios de comando e vazio ao mesmo tempo.

— Chame todos — disse ele ao Consigliere, com a autoridade de quem voltou ao trono. — Funcionários, soldados, prisioneiras. Quero todos na sala principal. Agora. Vamos colocar as coisas em ordem.

E foi nesse momento que eu percebi. O Ezequiel que havia acordado… não era o mesmo homem que me ensinou a confiar, me ensinou a lutar. Não, aquele Ezequiel estava enterrado sob camadas de poder, dor e esquecimento.

Mas eu estava ali. E eu ia ficar. Porque, por mais que ele não lembrasse de mim… eu lembrava dele.

Senti seus olhos me queimarem.

— Você me prometeu tantas coisas, sabia? Pensei que não era homem de voltar atrás com as palavras — reclamei.

— E não sou. O que foi agora? — percebi uma atenção diferente a mim.

— Disse que encontraria minhas irmãs — balançou a cabeça ponderando.

— Só isso? Posso enviar uma equipe até pulando de paraquedas atrás delas. Vai ficar menos irritante?

— Disse que faria eu me apaixonar por você. — Ele gargalhou.

— Você só pode estar de brincadeira!

— Porque? Se acha tão bom que todas precisam estar aos seus pés?

— Pelo que vi, as prisioneiras brigam por mim — senti a comida pesar no meu estômago. Deveria ter comido a sopa.

— Se está falando da Raquel, Luciana ou Sara... É pode ser. Então que fique com elas! — tentei sair, ele me segurou pela roupa.

— Sara? Onde está a Sara?

— Lembra dela? Eu não acredito que só eu fui apagada da sua cabeça! Ótimo! — consegui me afastar.

— Ela trabalha pro meu pai, pra mim...

— Você a enviou pra outra casa. Satisfeito? Podemos mandar chamar, talvez você me deixe em paz.

— Bom, depois vejo isso. Agora vem comigo. Porque como mulher tá difícil, agora é minha cozinheira! — veio me puxando pela mão e mesmo sentindo o ar sumir, eu fui.

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