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Aquela que o Don não pôde deixar partir romance Capítulo 30

Capítulo 30

Ezequiel Costa Júnior

O beijo dela me deixou tonto.

Não pela surpresa, ou pela ousadia — mas pela sensação que explodiu em mim, como se um fio mal conectado dentro da minha cabeça tivesse dado curto-circuito e reiniciado tudo. Sua boca era macia, quente, e havia um desespero tão humano naquele gesto que por um segundo não consegui me mover. Mariana me segurou com domínio e, ao mesmo tempo, com uma inexperiência que doía. Meus dedos se fecharam involuntariamente no tecido de sua blusa, como se meu corpo quisesse gravar aquele momento antes que minha mente tentasse apagá-lo também.

Mas foi rápido. Ela já havia se afastado, os olhos marejados, respirando como se tivesse corrido quilômetros só para me alcançar.

— Lembra de mim, Ezequiel! Por favor! — sua voz mexeu comigo. Sua boca vermelha me hipnotizou — Você precisa lembrar!

Pisquei. Senti o gosto dela nos meus lábios. Algo latejou em algum lugar. Como se... estivesse ali, mas encoberto. Embaciado. Uma silhueta atrás de um vidro sujo.

— Você nunca me beijou assim, não é? — perguntei, quase sem saber por quê. É como se eu soubesse que me lembraria se tivesse recebido um beijo assim.

Ela mordeu o lábio inferior, hesitando.

— Não. Nunca beijei ninguém assim. Estou desesperada. Você está mudando e levando embora a oportunidade que me deu pra mudar minha vida. E não é porque sou egoísta, mas porque sinto falta do que você era.

As palavras dela me atingiram mais do que qualquer arma. Não pela acusação, mas pela verdade que carregavam. Pela esperança embutida em cada sílaba. Era como se ela estivesse tentando segurar um homem que escorregava por entre os dedos — um homem que ela conhecia, que ela amava, e que agora só existia dentro dela.

Fiquei olhando pra ela em silêncio. Até perceber que seus olhos haviam se desviado. Ela encarava a cômoda, onde o maracujá ainda repousava como um símbolo esquecido de algo que eu não lembrava mais.

— Por que está olhando pra cômoda? — perguntei, a voz mais baixa, mais rouca do que eu esperava.

Ela sorriu, mas foi um sorriso triste, quase infantil.

— Você me deu aquele fruto... — disse. — Fiquei feliz feito tonta...

Me aproximei devagar. Meus olhos foram até o maracujá. A casca já começava a murchar, enrugada, como um tempo que se recusava a passar despercebido. Estendi a mão e o peguei, sentindo o peso leve dele.

— Então por que trouxe? — insisti, e minha voz saiu mais suave.

Ela me olhou, e dessa vez não havia lágrimas, só uma firmeza estranha em seu olhar.

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