Capítulo 70
Mariana Bazzi
Sara estava baleada.
Tudo virou confusão. Passos apressados, vozes elevadas, homens a minha volta, armas ainda em punho, o cheiro. A cena parecia fora de um pesadelo que eu não sabia mais se era sonho ou realidade.
Doutora Samira correu até Sara, já de joelhos, rasgando parte da roupa da mulher para avaliar o ferimento. Suas mãos ágeis agiam com precisão, mas sua expressão era tensa.
Ezequiel, por outro lado, parecia desconectado disso tudo. Observava o ambiente, a casa, os corpos no chão, como se o sangue escorrendo pelo tapete persa fosse apenas mais um detalhe do dia.
Ele passou os olhos por mim e pelas meninas, assentindo levemente. Parecia satisfeito, mas eu… eu mal conseguia raciocinar.
Abracei Íris e Soraya de novo, com força, como se meus braços fossem a única coisa que ainda pudesse mantê-las vivas.
— Vocês… como…? — eu mal conseguia falar.
— Ele salvou a gente, Mari. — Apontou para Ezequiel… — Foi onde estávamos e nos tirou de lá. Mas a gente não sabia que não viria direto pra cá, perto de você… ficamos num apartamento por dias — sussurrou Soraya, ainda com os olhos marejados.
— Meu medo é que o velho Ezequiel descubra — Iris comentou — Eu não quero morrer.
— É uma longa história, vou explicar tudo. O que importa é que estão seguras e ninguém vai morrer, eu garanto.
— Eu quero saber... — Soraia disse.
Não entendi uma coisa, que não fazia sentido. Há pouco, Yulssef havia me ameaçado dizendo que estava com elas. Que se eu falasse demais, ele mataria as duas.
Mas… elas estavam com Ezequiel?
Me afastei um pouco do abraço, o coração acelerado. Olhei ao redor. Yulssef atravessava o salão como se nada tivesse acontecido. As roupas alinhadas, a arma agora presa no coldre.
E foi nesse momento que ele passou por mim, indo em direção ao sofá onde outros homens começaram a se reunir. Mas antes, enquanto cruzava o corredor, inclinou-se levemente e sussurrou com o canto da boca:
— Agora elas estão perto, entendeu? Pra você ver de perto o que eu posso fazer. Um passo em falso, Mariana… e eu me vingo delas. Você quer ver alguma das duas morta ou presas entre minhas pernas? — Não abra a boca.
Minha pele gelou. O sangue pareceu escorrer das pontas dos dedos até os pés.
Eu quis correr, gritar, quis contar tudo a Ezequiel, mas ele estava do outro lado da sala, organizando os soldados, dando ordens secas. Seus olhos sérios, focados no que importava pra ele. Se eu dissesse, o que poderia acontecer com minhas irmãs?
Engoli o choro.
Segurei a mão de Soraya com força, puxei Íris pra perto e sorri. Um sorriso falso, frágil, desesperado.
— Vai ficar tudo bem — menti pra mim mesma.
Aaron levou a Sara, Ezequiel foi conversar com Mauro e Yulssef, e fiquei com minhas irmãs.
Expliquei para as duas que esse agente é Ezequiel, que perdeu parcialmente a memória e que estamos juntos.
Samira se aproximou em silêncio, limpando as mãos com um pano encharcado de sangue seco. Sentou-se ao meu lado no sofá, exausta, mas com o olhar ainda alerta. Fiz um gesto para que Íris e Soraya se aproximassem. As três nos acomodamos ali, apertadas, em um daqueles raros momentos de calma da vida.

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