Capítulo 8
Mariana Bazzi
Acordei assustada. Um barulho suave, quase imperceptível, me tirou do sono. Meus olhos demoraram alguns segundos para se ajustarem à luz suave que entrava pelas frestas da cortina. O quarto ainda estava em silêncio, mas eu sentia que não estava sozinha.
Foi então que o vi. De pé, próximo à porta, Ezequiel me observava. Me encolhi instintivamente na cama, puxando a manta até o queixo. O coração disparou. Meu corpo inteiro reagiu com tensão, como se esperasse um golpe, um grito, qualquer coisa.
— Bom dia — ele disse, com a voz baixa. — Dormiu bem?
— Sim… — respondi, quase num sussurro. Minhas mãos tremiam sob o cobertor.
Ele se aproximou devagar. Ainda assim, cada passo dele parecia um trovão nos meus ouvidos.
— Chamei o médico novamente. Gostaria que você fizesse alguns exames. Está muito pálida, quase não come. Pode ser algo sério.
— Não. — minha resposta foi automática, mais firme do que eu esperava. — Homem nenhum vai encostar em mim.
Ezequiel parou. Me encarou por um momento, com aquela expressão de quem analisa tudo, como se estivesse desmontando meus segredos.
— Você tem medo de homens ou de médicos? — perguntou, com uma calma estranha na voz. Eu abaixei o olhar, assenti lentamente. — Se eu trouxer uma mulher… você deixa te examinar?
Demorei alguns segundos. Então, balancei a cabeça afirmativamente. Era o máximo que eu podia fazer.
Ele respirou fundo, desviando o olhar por um instante.
— Vou pensar no seu caso. Por ora, coma seu café da manhã. Se não comer, Luciana vai devolver tudo para a cozinha e você só come no almoço.
Sem esperar resposta, virou as costas e saiu, fechando a porta atrás de si.
Assim que fiquei sozinha, corri até a bandeja. Estava faminta. A boca salivava só com o cheiro dos pães quentinhos. Peguei um com as mãos trêmulas, desesperada, como um bicho que passou tempo demais preso. Estavam deliciosos. Por um instante, quase esqueci onde estava. Tomei o suco, o chá e comi os bolinhos. Fazia muito tempo que não comia assim.
.
Horas depois, a porta abriu novamente. Uma mulher entrou. Vestia branco. Cabelos presos, rosto sereno.
— Mariana? Sou a doutora Samira. Posso te examinar?
Apenas a encarei por alguns segundos. Ela parecia... humana. Nada como os homens que conheci. Respirei fundo e assenti.
Ela pediu com delicadeza para que eu tirasse a parte de cima. Minhas mãos hesitaram. A vergonha e o medo colidiram dentro de mim. Comecei a chorar antes mesmo de levantar a blusa.
— Por que está chorando, querida? — ela perguntou, ajoelhando-se ao meu lado na cama.
— Estou tão cansada... Exausta dessa vida, de ficar roxa. De sentir dores. O que ele te pediu pra fazer comigo? — minha voz saiu trêmula, cheia de mágoa e cansaço.
Doutora Samira parou. Os olhos dela se arregalaram ao ver as marcas espalhadas pelos meus braços, pela barriga, pelos seios. Ela não disse nada por um tempo. Apenas me cobriu de novo com delicadeza, após visualizar o que queria.
— Ninguém me pediu pra fazer nada além de verificar se está bem. E ninguém vai te machucar agora, Mariana. Não comigo aqui. Você consegue confiar em mim?
As palavras dela me fizeram desabar de vez. Me encolhi nos braços dela como uma criança. Pela primeira vez em muito tempo, alguém me tocava com cuidado.
E por um momento... eu quis acreditar.
— Eles sempre me encontram. Eu nunca tenho pra onde fugir, não sei o que fazer — chorei.
— Eles quem, minha querida?
— Homens. Todos eles. Não suporto ouvir voz masculina. Chego a sentir náuseas. — Fui mostrando as marcas das coxas — Estão roxas, mas aqui dentro é onde mais dói... — bati a mão no peito — É uma dor insuportável, eterna. Nunca vou conseguir arrancar de dentro de mim.
— Faz tempo que sente isso? Tipo, mais de seis meses?
— Sim, bastante tempo. Anos na verdade. Homens encostaram em mim a força, por isso essas manchas.
— Calma, vai passar. Você vai conseguir lidar com isso. Precisa enfrentar essa dor e tentar esquecer. Está segura agora. Como isso tudo aconteceu?
Contei um pouco da minha vida pra ela, confesso que fiquei melhor. Ela prescreveu medicamento e pomadas, consegui descansar depois de tanto constrangimento.
***
Luciana apareceu no quarto.
— O Don a espera para o almoço. Eu trouxe uma roupa limpa. Sugiro que se comporte dessa vez. Quem sabe não vai embora.
— Está bem — respondi imediatamente.

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