Capítulo 10
Ezequiel Costa Júnior
Entrei, mas não fui até ela. Encostei as costas na porta fechada e fiquei ali. Braços cruzados, olhar atento. O quarto ainda estava com o cheiro do incenso que a doutora usava, uma tentativa inútil de esconder o medo no ar.
Ela estava sentada na cama, os joelhos juntos, abraçando os próprios braços. Assustada, sim. Mas me olhava. E isso já era muito.
— Quais foram seus pedidos? — perguntei, sem rodeios — Pode me lembrar o que me pediu?
Mariana hesitou por alguns segundos. Os olhos correram pelo quarto antes de voltarem pra mim.
— Visitar o túmulo da minha mãe… — começou, a voz embargada. — E procurar pelas minhas irmãs.
Assenti lentamente.
— Bom... posso conceder um desses desejos. Apenas um, terá que escolher.
Vi a surpresa surgir no rosto dela. Não falei com arrogância. Falei com verdade.
— Um?
— O túmulo da sua mãe está lá. Frio, imóvel, sem nada que eu possa mudar. Nada que você possa mudar também. Não quero te levar pra ver uma lápide se o que você precisa é resposta.
Ela franziu levemente a testa, tentando entender.
— Mas as suas irmãs… — continuei, a voz ficando mais lenta — elas podem estar vivas. E eu posso te levar até elas. O que acha?
Ela se ajeitou na cama. As costas se endireitaram. O olhar, antes apagado, ganhou um brilho diferente. Ela tinha uma nova esperança.
De repente seus olhos escureceram novamente e seu semblante mudou.
— E o que você quer em troca? — perguntou. A voz não era de desconfiança, mas de cautela. Ela estava aprendendo a negociar comigo.
Sorri de leve. Nada cínico, só o reconhecimento de que a coragem ainda morava ali.
— Só quero que comece a demonstrar confiança. Que ande pela casa como uma convidada. Não como uma prisioneira. Que conheça o jardim, a piscina, os funcionários.
O silêncio durou um pouco mais dessa vez. Ela olhou pro chão, pensativa, antes de me encarar de novo.
— Eu… não sou mais prisioneira?
Me aproximei dois passos, mas mantive distância segura. Cruzei os braços outra vez.
— Não vou responder isso. — disse, com calma. — O que vale é o que a gente negociar. Se você se comportar como convidada, eu te trato como uma. E você poderá ver suas irmãs. Não posso fazer tudo de graça, você precisa colaborar.
Ela mordeu o lábio inferior. Os olhos fixos em mim.
— E se eu falhar?
— Vai tentar de novo. — respondi de imediato. — Mas não me engane. Não minta. Isso eu não perdoo.
Ela assentiu, devagar, com um movimento pequeno de cabeça.
— E o que me diz, Mariana? — perguntei, dando meu último passo para perto da porta de novo, como se reafirmasse o controle — Negócio fechado?

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