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Aquela que o Don não pôde deixar partir romance Capítulo 84

Capítulo 84

Mariana Bazzi

Acordei no escuro.

A primeira coisa que senti foi o cheiro. Um fedor de gasolina, ferrugem e borracha. A segunda coisa: o balanço irregular. Estava em movimento.

A terceira? O pânico.

Me mexi, bati com a cabeça no metal. Estava apertada, enrolada sobre mim mesma. Meus braços doíam, e minhas pernas estavam presas de um jeito torto. Toquei ao redor e percebi... o porta-malas.

Eu estava presa num porta-malas.

— NÃO! NÃO! — gritei, socando as laterais, tentando chutar com os pés, mesmo que não houvesse espaço. — Ezequiel! Socorro! SOCORRO!

Nada.

Só o som abafado do motor e da estrada. Ninguém me escutava, estava sozinha. E pela primeira vez em muito tempo, o medo paralisante me engoliu como antigamente.

Mas eu não era mais aquela garota.

Fechei os olhos e respirei fundo, tentando não entrar em colapso. Eu tinha passado por coisa pior e sobrevivi. Eu me apaixonei por um homem perigoso. Eu enfrentei inimigos armados.

Não ia morrer aqui.

O carro freou de repente. Meu corpo foi jogado pra frente e voltei a me debater. Gritei de novo.

A luz ardeu meus olhos. A tampa do porta-malas se abriu com um rangido.

O rosto suado e grotesco de um homem desconhecido surgiu contra a luz do dia.

— Achou que ia dormir até tarde, princesa? — zombou.

Tentei sair com tudo, chutei, bati, mas ele me segurou como se eu fosse uma boneca.

— Me solta! SEU DESGRAÇADO! — urrei, mas meus braços ainda estavam fracos e meu corpo tremia.

Quando os dedos dele apertaram meu pulso com força, senti aquilo de novo.

O gelo, o bloqueio, a androfobia.

Meu corpo travou por alguns segundos. Os gritos ficaram presos. O mundo girava.

Então... eu ouvi a voz asquerosa.

— Solta ela.

O homem me jogou no chão com brutalidade. Caí de joelhos, tossindo. Quando olhei pra frente, vi Yulssef.

Ele estava destruído. Ezequiel deve ter dado uma surra nele, mas porque está aqui agora? Solto? Ah! Foi Raquel...

Seu rosto com cortes profundos, um dos olhos meio fechado, sangrando, mancando. Mas nos olhos dele não havia dor. Só ódio.

— Olha só... a causadora de todo esse caos. — ele cuspiu no chão. — Você. Sempre você.

Me arrastei pra trás, sentindo a grama molhada sob as mãos. Estávamos num lugar cercado de floresta, isolado. Não fazia ideia de onde era.

— Você acha que ele era assim antes de você? Ezequiel era forte, frio, controlado. Você o transformou num vendedor de morangos! Não tem boca pra nada — ele se aproximava, passo a passo. — Tem que ter alguma coisa muito boa entre essas pernas pra quebrar um homem como ele. E sabe o que é? Eu preciso provar.

— Vai pro inferno! — gritei.

Ele riu, amargo, e fez um sinal com a cabeça.

Dois homens me agarraram. Eu esperneei, gritei, mordi, mas eles eram mais fortes.

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