Capítulo 86
Mariana Bazzi
Fiquei tensa ao ouvir os barulhos, parei me obrigando a recuar, ainda ofegante, os braços tremendo de tanto lutar. Olhei para Yulssef, estirado no chão, sangrando, arfando com raiva e medo.
— Não é o Ezequiel... — sussurrei para mim mesma, quando o barulho de passos apressados se aproximou da porta.
O trinco girou. Eu me virei, olhos arregalados.
Era um brutamontes com uma arma na mão e sede de sangue nos olhos. Ele me viu e sorriu torto.
— O chefe tá todo ferrado, então vim acabar logo com isso — olhou pra fora e depois para Yulssef — Levem esse idiota pra base, vai passar pelo médico. Talvez seja útil pra gente.
Não era japonês, mas deve trabalhar com a parte pesada da máfia.
Antes que eu pudesse reagir, ele ergueu a arma.
— Tire a roupa.
Um clarão se formou na minha mente. Pavor, desespero, agonia, tudo misturado. Eu gritei, me abaixei instintivamente — e foi quando vi a arma caída no chão, a de Yulssef.
Num impulso, me joguei em cima dela. Meus dedos se fecharam em volta do cabo frio. Eu não sabia como usar esse treco, mas teria que descobrir e agora.
Sem pensar, girei, ainda no chão, e apertando o gatilho com força, atirei.
O estampido foi ensurdecedor. Não entendi pra onde foi. Até que percebi...
O homem caiu pra trás com um grito seco, a bala pegando no peito. Sangue esguichou na madeira atrás dele. Os outros dois, que vinham logo atrás, pararam de imediato, chocados.
— ELA TÁ ARMADA! — foi tão assustador que tive dúvidas se havia sido realmente o meu disparo.
— CUIDADO!
Mas estavam hesitando. Vi que um deles tentava recarregar às pressas, xingando, e o outro olhava ao redor, sem cobertura.
Eles estavam com pouca munição. Provavelmente acabaram com elas na casa de Ezequiel.
Eu não sabia atirar. Não fazia ideia de quantas balas ainda tinha na arma que eu segurava, mas o medo me deu coragem. Apertei o gatilho de novo, o corpo todo trêmulo. A bala ricocheteou na parede. Outra tentativa, mais um disparo perdido. Só que vi japonês correndo pra tudo quanto é lado.
— Droga, droga, droga! — sussurrei, e saí correndo também pela porta aberta.

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