Capítulo 88
Ezequiel Costa Júnior
Encostado na parede fria do hospital, com os braços cruzados e o maxilar travado, não tirei os olhos da porta da sala de atendimento por um único segundo. A cada profissional que saía, meu corpo se enrijecia. Mas, enfim, veio o médico de jaleco branco, semblante calmo, um leve cansaço no olhar.
— Senhor Ezequiel? — ele chamou, e ergui o rosto imediatamente.
— Sim.
— A senhorita Mariana está bem. Foram apenas escoriações, alguns hematomas nos braços e no rosto. Já aplicamos um analgésico para a dor e ela respondeu bem.
Fechei os olhos por um instante. O alívio veio como uma brisa depois da tempestade.
— Não bateu com a cabeça?
— Não. Talvez desmaiou com o susto.
— Posso vê-la?
— Claro. Já estamos finalizando a alta.
Agradeci com um aceno breve e entrei.
Mariana estava sentada na maca, vestindo uma camisa branca que mal cobria os joelhos. Os cabelos estavam presos em um coque improvisado e havia um pequeno curativo acima da sobrancelha esquerda. Ainda assim... bela, imensamente forte.
— Como se sente? — perguntei, aproximando-me.
— Como se eu tivesse sido atropelada por um caminhão. — Ela sorriu de lado. — Mas estou viva.
— E vai continuar assim.
Ela estendeu a mão e segurei, sentindo a firmeza que havia nela.
— Quer descansar? Tenho um apartamento não muito longe daqui. Posso te levar, e depois volto pra resolver o resto. É melhor não voltar para aquele lugar hoje.
Ela ergueu as sobrancelhas.
— E a casa? O que aconteceu lá? Minhas irmãs? Doutora Samira? Sara? Os empregados?
Suspirei, soltando a mão dela devagar.
— Eu ia verificar isso agora. Você pode descansar e depois te informo de tudo.
— Não, então eu vou com você. — Ela já descia da maca, mesmo ainda com os pés descalços.
— Mariana... você devia descansar.
Ela pegou os sapatos que estavam ao lado e me encarou.
— Você mesmo disse que nasci pra ser a dama da máfia. Então vamos lá. Vamos resolver isso juntos.
Aquele brilho nos olhos...
Ela não era mais apenas a mulher que eu protegia. Era meu par, meu espelho, minha força.
Assenti.
— Vamos.
No carro, enquanto dirigia com uma mão no volante e outra repousando sobre a perna dela, que se mantinha firme, contei o que sabia:
— Suas irmãs estão bem. Samira também. Sara estava com elas. Ninguém foi levado. O que fizeram foi espalhar o caos e vi que tem vários feridos.
— E Raquel? — ela perguntou, depois de um longo silêncio.
— Não teve o que pudéssemos fazer. Está morta.
Ela abaixou o olhar, os dedos apertando levemente o banco.
— Foi ela quem me entregou pro Yulssef.
Pisquei devagar. O nome dele era uma ferida aberta em mim.
— Então ela foi tarde demais. — Minha voz saiu baixa, firme. — Eu não quero mais traidores naquela casa.
Apenas assentiu em silêncio. E naquele instante, mesmo com tudo o que havia acontecido, eu soube que Mariana não era apenas uma sobrevivente. Ela era, de fato, a mulher certa pra caminhar ao meu lado no topo de tudo isso.
E quem ousasse tocar nela de novo… morreria.
Assim que o portão da propriedade se abriu, a fumaça densa no ar denunciava que Mauro já havia começado o trabalho sujo. A frente da casa parecia um campo de guerra em reconstrução. Corpos? Nenhum. Apenas o cheiro de carne queimando vindo da fogueira nos fundos.
O bom é que ninguém passa por aqui. É afastado de tudo.

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