Assim que atravessa a porta de vidro da empresa de Hector, Ava caminha em passos rápidos até o veículo estacionado em frente, onde sua mãe a aguardava. Entra em silêncio, e Rafaela percebe de imediato que algo não estava nada bem.
— O que houve, filha? — pergunta, preocupada, observando o semblante fechado da jovem.
— Nada, mãe — Ava responde rapidamente, desviando o olhar.
— Achei que você fosse demorar mais um pouco.
— Pois é... mas o Hector estava ocupado em uma reunião muito importante. Não quis atrapalhá-lo. — murmura, forçando um sorriso, mas sentindo a garganta apertar.
— Compreendo… E como faremos com seus documentos? — Rafaela insiste, notando o nervosismo no rosto da filha. — Você chegou a falar com ele?
— Pedi à secretária que desse o meu recado — mente, engolindo em seco ao se lembrar da cena que acabou de presenciar: Hector e a secretária… no mesmo lugar onde, horas antes, haviam feito amor.
O estômago se revira, mas ela permanece firme, com os olhos fixos na rua à frente, como se o silêncio pudesse protegê-la da dor.
— Então… o que nos resta é apenas esperar — diz Rafaela, forçando um sorriso, embora seu olhar continue atento à filha.
Algo ali não estava certo, e ela sabia. Ava podia mentir com palavras, mas não com os olhos.
Por um momento, o silêncio se instala de novo, mas Rafaela resolve mudar de tom, tentando aliviar o peso no ar.
— O que acha de fazermos algumas compras? — propõe com leveza. — Nada como gastar um pouco para tirar a cabeça das coisas.
Ava sorri de canto, mas é um sorriso pequeno, que não chega aos olhos.
— Pode ser… — responde, apertando as mãos no colo. — Talvez me ajude a pensar em outras coisas.
— Isso, minha filha — diz Rafa, animando-se. — Um dia de compras, um café e um pouco de conversa. Vai fazer bem para você. E para mim também. Quanto tempo faz que não fizemos isso? — pergunta, com um sorriso nostálgico nos lábios.
— A senhora tem razão — Ava responde, tentando controlar a dor que ainda pulsa por dentro. — Faz muitos anos que não fazemos isso… devemos aproveitar esses dias, enquanto ainda não voltei ao trabalho.
Assentindo em silêncio, Rafaela observa a filha pelo canto dos olhos. Queria dizer algo, queria perguntar mais, mas sabia que Ava precisava de espaço — e talvez, apenas de companhia.
O automóvel arranca devagar, deixando para trás o prédio onde Ava acabava de enterrar mais uma parte de suas esperanças.
Ela fecha os olhos por um breve instante, tentando apagar da memória a imagem que ainda insistia em doer… mas algumas feridas, ela sabia, não cicatrizam com compras nem com sorrisos forçados.
No meio do caminho, enquanto o veículo segue pela avenida, ela se recosta no banco, com o olhar perdido pela janela.
“Por que diabos estou sentindo isso por aquele idiota?” — pergunta-se em silêncio, apertando os punhos sobre o colo. A raiva vem em ondas, mas não consegue abafar a dor.
“E o pior de tudo… é que deixei tão visível.”
A imagem de si mesma, de pé no elevador, com os olhos marejados, implorando para não desmoronar… a envergonha.
“Nesse momento, ele deve estar rindo de mim.” — pensa, mordendo o lábio com força. — “Ele e aquela secretáriazinha sem vergonha… os dois zombando da minha cara, como se eu fosse uma tola qualquer.”
O sangue ferve, a raiva se mistura à humilhação.
— Aqueles dois desgraçados… — murmura, sem perceber que Rafaela ouviu.

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