Os olhos de Ava percorrem rapidamente a sala, e a cena diante de si lhe dá nojo. Ao ver o corpo de Priscila praticamente em cima de Hector, tudo dentro dela se contrai.
— Desculpa… — diz, num tom rápido e contido, tentando parecer indiferente. — Eu não sabia que estava ocupado.
Ela se vira para sair.
Num impulso quase instintivo, Hector se levanta bruscamente, derrubando Priscila sem querer. Ela tropeça e cai de mau jeito ao lado da mesa, soltando um pequeno gemido de dor e surpresa.
— Ava, espera… — ele chama, já atravessando a sala em passos largos, ignorando sua secretária caída.
Mas Ava não responde. Já está no corredor, andando apressada em direção ao elevador, com os ombros tensos e o olhar fixo à frente.
— Ava! — Hector insiste, alcançando-a.
Ela apenas estende a mão e aperta o botão do elevador com força, sem sequer olhá-lo.
— Tudo bem — diz com a voz firme. — Eu volto outra hora. Não precisa se preocupar com isso.
Ao ver os olhos dela brilharem por um segundo, Hector não sabe se é raiva, decepção ou tristeza. Talvez um pouco dos três.
O elevador demora a responder. Ava mantém a postura ereta, como quem se obriga a não desmoronar ali mesmo. O silêncio entre os dois é cortante.
Hector dá mais um passo em sua direção.
— Ava, por favor, me escute. Eu posso explicar.
Ela respira fundo, mantendo seus olhos fixos na porta metálica à sua frente.
— A questão, Hector… — diz, finalmente olhando para ele por cima do ombro — é que você não me deve droga nenhuma de explicação.
A porta do elevador se abre e então ela entra sem olhar para trás.
Antes que as portas se fechem, Hector as impede com a mão e entra atrás dela. O silêncio entre os dois é sufocante enquanto as portas deslizam lentamente e os isolam do resto do mundo.
Ela mantém os braços cruzados, olhando para o painel. Inquieto, ele a observa por um momento antes de finalmente falar:
— Sei que não te devo explicação nenhuma — diz, com a voz mais baixa, tentando controlar o tom — mas mesmo assim… preciso deixar claro que não estava acontecendo nada de mais naquela sala.
Sem se conter, Ava solta uma risada seca, amarga.
— Claro que não era nada de mais — ela diz, com um sorriso irônico e o olhar ainda cravado à frente. — Afinal, você deve estar bem acostumado a transar com todas na sua mesa, não é? — cospe as palavras com amargura, e o olhar afiado. — Até eu fui uma delas.
O impacto daquilo atinge Hector em cheio. Ele vê a mágoa estampada no rosto dela, mesmo por trás da provocação.
— Ava… — ele começa, se aproximando mais dela — você entendeu tudo errado.
Ela solta o ar devagar.
— Não importa o que eu entenda.
As luzes do elevador seguem descendo, mas ali dentro, o tempo parece suspenso. Hector dá um passo mais perto.
Tentando conter a frustração, ele respira fundo.
— Eu estava dando um fora nela, Ava. Você entrou bem no meio disso. Eu não estava gostando daquilo, muito menos incentivando. Se tivesse chegado cinco segundos antes, teria visto.
A porta do elevador se abre.
Revirando os olhos, ela dá um passo à frente, mas Hector se move rápido e a impede de sair do elevador.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Caminho traçado: Resgatada pelo inimigo